O SOL NOSSO DE CADA DIA
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 14 de julho de 2000
Maigue Gueths De Curitiba 
Tomar muito café, vestir duas calças, usar luva, boné, cachecol e muitos casacos, além de forrar o chão com papelão são algumas saídas encontradas por pessoas que todo dia quase congelam em seus trabalhos, localizados em prédios que nunca recebem um raio de sol. Esta situação é comum principalmente em edifícios do centro da cidade, construídos há muitos anos, numa época em que não havia legislação determinando padrões mínimos de ensolação e iluminação para as edificações.
Nas duas primeiras quadras da Rua Ermelino de Leão, que começa bem no coração da Boca Maldita de Curitiba, o sol só chega no local ao meio-dia e, ainda assim, só atinge o meio da rua. Nas calçadas e nas lojas a sombra é uma constante. O porteiro do Edifício Natálio Santos, José Gonçalves Dias, trabalha há 44 anos no local e já tem a receita certa para driblar o frio. O negócio é trabalhar de chapéu, com muita roupa, de capote e não parar, diz ele, que mora com a esposa na cobertura situada no 12º andar do prédio.
Os funcionários da Iluminação Eletrolândia, uma das lojas mais antigas da rua, reclamam que trabalhar com muita roupa não é bom, mas é a única saída. Aqui é sempre gelado. Só é bom no verão quando fica fresquinho, diz o supervisor Bohdan Hula, que trabalha há mais de 20 anos na loja, e costuma tomar muito café para esquentar. Já o balconista Antonio Pedro Macedo, de 23 anos, usa outra estratégia: Venho com um moleton embaixo da calça, porque ainda tenho aula à noite, diz. Eles também decidiram forrar o chão atrás do balcão com papelão para diminuir a umidade. Já a balconista da Loja Pinton, Lúcia Zacarias Pinto, enfrenta seu primeiro inverno no local. No próximo ano vou ter que trazer um aquecedor, diz, lamentando não poder tomar sol na calçada.
Com a nova lei de zoneamento, aprovada em dezembro, a prefeitura de Curitiba acredita que esta situação melhorará. As construções já existentes continuam, mas a lei visa evitar novos paredões de edifícios, como acontece em diversas ruas da cidade, que sofreram um adensamento populacional sem um controle rígido. A situação é crítica principalmente nas zonas estruturais, junto aos trinários formados pelas vias de expresso e duas vias rápidas paralelas onde a distância mantida entre os prédios era de apenas 2 metros.
Pela nova legislação, esta distância passa a ser calculada ppor uma fórmula. Ou seja, o afastamento deve corresponder a um sexto da altura. Assim, um prédio de 30 metros de altura, por exemplo, deve manter um afastamento mínimo de 5 metros de cada lateral e nos fundos do terreno. Estudos mostram que com essa mudança a iluminação pode melhorar até 387% e a insolação pode ter um acréscimo de até 23,4%.


