Aproximadamente 4.500 passos em silêncio, em torno das ruas centrais de Londrina, e duas metas: alcançar as escadarias da Catedral e um cotidiano menos violento. Foi assim a passeata ''Chega de Luto'' realizada ontem por aproximadamente 250 familiares e amigos de vítimas da violência, representantes da sociedade civil e poder público. Uma das faixas informava que apenas nos últimos 13 meses, 150 londrinenses de nascimento ou adoção perderam a vida drasticamente.
O objetivo da mobilização não era o alarde, mas a reflexão. Em comum, cruzes negras nas mãos, a tentativa de amainar a dor da perda e, de alguma forma, contribuir para a reversão da escalada da morte e da violência. Por onde passou, o 'cortejo fúnebre' dos que não se acomodaram espalhou o silêncio.
''O sentido é simbólico, psicológico, acima de qualquer coisa. Após quatro anos de crescimento insuportável da violência, a sociedade mostra que não aguenta mais'', disse a promotora da Infância e Juventude, Édina Maria de Paula que foi à passeata acompanhada dos filhos. ''Este é um problema de família, de ausência de valores. Não podemos eximir o Estado, mas a responsabilidade pela mudança é da sociedade. O sol nasceu para todo mundo e cada um tem que procurar seu caminho. Chega de comodismo''.
O médico Marcos Posso, padrasto do estudante Gabriel Marques Resende Guimarães, de 20 anos, assassinado durante assalto no final do ano passado, disse que começou a se envolver na luta contra a violência ''após o primeiro impacto'' da tragédia. ''Cobramos da polícia, eles foram eficazes, mas para mudar as coisas de verdade partimos para esse movimento, que aglomerou entidades e desencadeou uma série de ações. Nós conhecemos o diagnóstico da violência, que envolve falta de saúde, de educação e outras coisas, mas de imediato exigimos ações práticas: o efetivo da polícia é defasado, o sistema prisional realimenta a criminalidade; há uma falha muito grande do Estado''.
Sobre a demora na resposta do poder público, a dona de casa, Ana Maria Barroso Zanluchi, de 60 anos, fala de cátedra. ''Meu genro foi assassinado em 93, deixou minha filha viúva aos 22 anos, e o julgamento deve ocorrer apenas este ano'', contou.
''Dizem que a justiça tarda, mas não falha'', questionou o repórter. ''Eu acho que a justiça tarda, falha, mas um dia realmente chega. Infelizmente, nos faz reviver o martírio e remexe em todas as feridas''.
Em meio a famílias enlutadas, o advogado e presidente do Conselho Comunitário de Segurança, Alvino Filho, se exaltou ao cobrar a responsabilidade das autoridades. ''Todas as vezes que fazemos cobranças técnicas, constatamos a ineficiência ou má gerência, nas secretarias de Justiça e Segurança Pública. Para esta mobilização sabemos que existiram vozes contrárias, inclusive do governador Roberto Requião, que veio a Londrina durante a semana. Se é para criticar a organização da sociedade, que se manifeste publicamente então'', cobrou.
Sobre a reclamação de familiares quanto à lentidão da justiça, Alvino Filho mirou no Tribunal de Justiça (TJ). ''Por que ainda não fizeram o anexo do Fórum local para abrigar os novos juízes que já foram designados para a cidade e não podem trabalhar por falta de espaço? Na 2 Vara Criminal, existem 452 processos com réus presos, e 7.000 processos tramitando. Isso, para um juiz só'', reclama. De acordo com ele, padrões internacionais apontam que um magistrado tem condições de cuidar, no máximo, de 2.000 mil processos simultaneamente.
A passeata silenciosa prosseguiu e entrou pelo calçadão. De repente, a proprietária de um quiosque de sorvetes, Mafalda Aembrini, 72 anos, adere verbalmente ao protesto. ''É isso mesmo, temos que reclamar''. E explica para a reportagem: ''Arrombaram os quatro cadeados de chave tetra essa noite. Moro aqui há 27 anos e nunca vi coisa assim. Como está feia nossa Londrina'', lamenta.
Na escadaria do calçadão, o coordenador da mobilização e representante do Clube de Engenharia e Rotary Clube, Claudio Espiga, relata o sentimento pessoal. ''É de muita tristeza. Não por mim especificamente, mas por meu vizinho, pelo amigo. Eu choro por todos eles. Precisamos nos envolver, é uma questão de cidadania, gente'', convoca.
As palavras bíblicas citadas pelo bispo José Lanza Neto, ao encerrar o ato ecumênico pela paz, vão no mesmo sentido. ''Carreguem os fardos uns dos outros, e assim vocês estarão cumprindo a lei de Cristo. Precisamos construir uma nova sociedade e um novo mundo'', completou.

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