O showman que parava o salão
Santo Antônio da Platina - Jayme Marques Pintos e recorda do dia em que Booker Pittman apareceu na cidade. "Só tinha a roupa do corpo, um terno puído e sujo da orquestra que tocava em Londrina, e o sax. Minha mulher lavou a roupa dele e lhe serviu refeição", contou. A estranheza com os costumes da figura de alma boníssima, como definiu, começaram logo de cara. "Você dava um prato de feijão com arroz e carne e outro com sobremesa ele misturava tudo. Era arroz, com carne, mel, melancia picada. Era um americano maluco", sorriu ao recordar.
Ao lado de Jayme, o barbeiro Ildevan Alves Carneiro, de 75 anos, ajuda a reavivar as memórias de "um tempo que já se foi". Ele arrisca algumas notas no trompete em que tocou o Carnaval de 1956 ao lado de Buca. Os dedos habilidosos que percorriam com rapidez as chaves, hoje se resumem ao vai-e-vem da tesoura ou do corte preciso da navalha. "Tenho que treinar mais, muito tempo parado", avaliou a performance de Aquarela do Brasil. "Naquele tempo a orquestra era muito boa, até em Curitiba nós tocamos", lembrou.
No cartaz publicitário da época, estampado na parede de Jayme, Buca era destacado como a atração principal. "Ele era um showman, na verdade. Não servia muito para tocar junto com a orquestra, porque não conhecia nossos ritmos. Mas ele sozinho no meio do salão com seu jazz não tinha para ninguém", destacou Jayme. "Ele tinha a voz rouca, como a do Louis Armstrong. Cantava, rodava o sax como se fosse uma arma. Era quase um teatro. O público ficava embasbacado e sempre pedia bis, de pronto atendido".
Mas o negro norte-americano tinha queda pelas branquinhas sul-americanas: primeiro o pó, depois o líquido. Da cocaína, Buca se livrou antes de chegar ao Norte Pioneiro, porém o vício foi substituído pela cachaça. "Dia de baile tínhamos uma pessoa tomando conta dele. Mesmo assim conseguia dar umas escapadas. Eu comprava pinga no mercado e deixava na casa dele. Era melhor que ele ir para o bar. E eram três litros por dia", contou Jayme. "Ele era muito bom, nunca incomodava ninguém, tirava a camisa do corpo se alguém precisasse, mas tinha esse problema." (C.F.)
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