O sentido da Páscoa através dos tempos
O sentido da Páscoa
através dos tempos
Paulo Sérgio Bretones
Da mesma forma como a maioria das festas religiosas, as origens da Páscoa estão relacionadas com os fenômenos da natureza. Há milhares de anos, os pastores do hemisfério norte comemoravam a chegada da primavera com uma festa para celebrar o fim da grande noite do inverno e o renascimento da natureza. Com o correr dos anos, a Páscoa passou a significar libertação, já que, durante a comemoração da data, os hebreus fugiram do cativeiro no Egito e, liderados por Moisés, saíram em busca da terra prometida.
Na Páscoa judaica, um dos costumes é comer carne de cordeiro, tradição nascida do seder (jantar ritual) de Pessach, festa em que os judeus celebram sua passagem pelo Mar Vermelho. Em 1513 a.C., esta data foi instituída para que fosse lembrada a viagem do povo hebreu do Egito até a região onde hoje é Israel. O Pessach ou Páscoa judaica é celebrado no dia da primeira lua cheia da primavera e não precisa necessariamente cair num domingo.
Para os judeus, comer a carne de cordeiro relembra a ceia que seus ancestrais fizeram durante o cativeiro no Egito, na noite em que um anjo exterminador percorreu os lares para matar os filhos mais velhos das famílias. Para evitar que seus lares fossem visitados, os judeus derramaram o sangue dos cordeiros nas portas.
A tradição cristã superpôs as Páscoas e redefiniu a data. A festa cristã coincide com o fim da Quaresma. Segundo os Evangelhos, Jesus Cristo e seus discípulos celebravam o Pessach na Santa Ceia, realizada em uma quinta-feira. Conta a história que isso ocorreu ao entrar no dia 14 de nissan que, no calendário bíblico, é o primeiro mês do ano. É o que o livro sagrado chama de Ceia do Senhor, quando Jesus Cristo instituiu a eucaristia. Um dia depois, Cristo teria sido crucificado e teria ressuscitado no domingo, ao terceiro dia, no 17 de nissan, cumprindo, segundom a Bíblia, a obra de redenção do homem. Assim, para os cristãos, a Páscoa adquiriu o significado religioso de retorno à vida.
O Concílio de Nicéia, em 325 a.C., fixou a data da Páscoa no primeiro domingo depois da lua cheia, que ocorre após ou no início do equinócio da primavera do hemisfério norte, em 21 de março. Em 1582, porém, a primavera deveria começar em 21 de março e ocorreu no dia 11 de março. Desta forma, a data da Páscoa poderia estar cada vez mais atrasada até coincidir, anos mais tarde, com o Natal. Isso porque, quando o Sol passa pelo equinócio, distribui por igual seus raios nos dois hemisférios e a lua cheia ilumina a noite. Sob o ponto de vista do hemisfério norte, a Terra na entrada da primavera tem seus campos começando a florir e as aves voltando a cantar.
É por isso que, mesmo antes de Moisés, os pastores nômades já consideravam essa a sua principal festa. A celebração da Páscoa é uma data móvel. Todas as outras festas religiosas móveis do Calendário Eclesiástico Cristão são marcadas com base na data da Páscoa.
Essas festas são definidas da seguinte forma: Septuagésima: 63 dias antes da Páscoa. Quinquagésima (domingo de Carnaval): 49 dias antes da Páscoa. Terça-feira de Carnaval: 47 dias antes da Páscoa. Quarta-feira de Cinzas: 46 dias antes da Páscoa. Domingo de Ramos: 7 dias antes da Páscoa. Sexta-feira da Paixão: dois dias antes da Páscoa. Pentecostes: 49 dias após a Páscoa. Santíssima Trindade: 56 dias após a Páscoa. Corpus Christi: 60 dias após a Páscoa.
O autor é professor de astronomia da Universidade São Francisco, de São Paulo





