O roubo a ônibus de cada dia
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sexta-feira, 15 de novembro de 2002
Emerson Dias<br> Reportagem Local 
Era só mais um dos cinco ônibus roubados naquela segunda-feira. Um fato, porém, assustou mais que o menor com a faca na mão ameaçando o cobrador: a calma do pessoal que estava dentro do veículo. Não aquela calma de quem está anestesiado pelo medo ou tentando pensar em outra coisa para fugir da realidade (querendo estar em todos os lugares, menos ali). Era a indiferença diante de um acontecimento rotineiro, presenciado por todos dia após dia, sabendo que a impunidade continuará imperando no próximo turno dos funcionários das empresas de transporte coletivo.
''Com este, são 19 assaltos'', resmungou o cobrador da linha 103 Marabá/Santa Fé, ônibus que circula entre invasões, favelas e assentamentos ainda sem qualquer estrutura, seja asfalto, iluminação ou saneamento básico. Para um jovem que estava entre os passageiros, aparentando não mais que 16 anos, a preocupação maior era com o horário: ''Putz, vou chegar atrasado de novo.'' Soltou a frase no ar, sem olhar para qualquer um dos demais passageiros.
Os dois rapazes que roubaram o ônibus não usavam máscaras, bonés, meia-fina (no rosto, claro!) ou qualquer outra coisa que escondesse a identidade ou dificultasse a posterior identificação. A tática simples esperar o veículo passar pelo ponto final funcionou mais uma vez. Com poucos usuários dentro do lotação, os delinquentes dão sinal, sobem, abordam o cobrador, puxam o dinheiro da gaveta e saem caminhando. Nenhuma ameaça mais violenta, gritos ou ''olhos nos olhos'', na tentativa de intimidar passageiros e funcionários. ''Assim não dá! Até tava feliz porque fazia uns três meses que não éramos roubados'', lamentou novamente o cobrador, lembrando que, pelo menos, ''os caras não atacam quem está dentro do carro''.
O motorista também aparentou tranquilidade diante de uma cena vista tantas vezes, lembrando que ''felizmente não levaram o relógio''. ''Pior é em São Paulo, onde os empresários não acreditam nos empregados e cobram o prejuízo deles'', comentou.
Um estudante sentado na fileira direita do coletivo não disse nada. Apenas pegou a carteira e, numa reação instintiva (mas não menos tranquila), colocou na bolsa da escola. Mais 20 minutos de espera, a chegada da polícia, a liberação do carro e o retorno ao trabalho, como se a presença dos assaltantes no interior do ônibus fosse tão comum como os vendedores de chicletes ou as crianças pedindo dinheiro para ajudar a mãe e os irmãos doentes.
O total do roubo calculado pelo funcionário: R$ 6,00. E ''bola pra frente'', como gritaram os desbravadores da zona leste, que tinham ainda mais seis horas de serviço noite adentro.


