'O que me dói é a solidão', revela ex-pedreiro
Seu Antônio (nome fictício) se lembra até hoje da profecia que ouviu há anos da cunhada, viúva de seu irmão: ''Ela me disse que quando meus enteados crescessem, iam dar problema''. Infelizmente, a cunhada estava certa. Seu Antônio, 63 anos, foi expulso da casa da ex-esposa há oito meses. O divórcio já estava a caminho na época, mas ele lembra que não foi este o motivo da sua saída.
''Meus enteados, um rapaz de 18 anos e uma menina de 15, me fizeram sair, porque queriam liberdade para fazer o que quisessem. Ficar na rua até tarde, esse tipo de coisa. E eu não deixava'', conta. Ele estava casado com a mulher desde 1991. Depois de sair, seu Antônio passou uma semana em Campinas (SP), onde tentou morar com uma filha. Não deu certo. ''Eu não sei viver em apartamento e também não gostei do clima, estava fazendo mal para a minha saúde.''
De volta ao Norte do Paraná, seu Antônio só encontrou lar num pequeno cortiço na Vila Casoni, área central. Passa os dias num quarto minúsculo, em que a cama fica espremida pela cômoda e pela mesa onde é preparada a comida. O fogão é um forninho de camping, com duas bocas. Os alimentos para o almoço, oriundos da cesta básica repassada pela Secretaria do Idoso, são guardados nas gavetas da cômoda. A TV, que chegou há poucas semanas, foi presente da ex-esposa.
''Ela me ajuda um pouco, repassa um dinheirinho'', conta ele. Mas a ajuda não parece ser suficiente: o idoso paga apenas R$ 80 por mês pelo aluguel do quarto, mas seu Antônio já pensa em arranjar um local mais barato. Ele lembra que os outros três filhos, que também moram em Campinas, não podem ajudar. Trabalham em empregos que pagam pouco. ''Eles tiveram que gastar pra comprar um carro recentemente. Além disso, precisam pagar aluguel e lá é caro''.
Seu Antônio tem dois irmãos vivos: uma irmã mora em Sertanópolis (40 km ao Norte de Londrina). ''O marido é catador de papel'', resume o idoso. O outro irmão está desaparecido. No dia em que foi entrevistado pela Folha, seu Antônio comemorava que passaria a receber R$ 100 por mês da Secretaria do Idoso, mas reclamava que o dinheiro só chegaria no final do mês.
O terceiro irmão, marido da cunhada autora da ''profecia'', morreu de Doença de Chagas. Seu Antônio tem a mesma enfermidade, além de diabetes e reumatismo, o que tem comprometido sua locomoção. Ele não recebe aposentadoria conta que não tem a idade mínima e que fez muitos bicos ao longo da vida, o que impediu que acumulasse registros suficientes na carteira para se aposentar por tempo de serviço.
Ex-cobrador de ônibus e ex-pedreiro, seu Antônio não tem conseguido trabalhar. Depende da ajuda dos outros, e se diz incomodado com isso. ''Eu quero lutar. O que me chateia não é tanto a dificuldade financeira, mas a saúde. Tenho medo de deitar e de me encontrarem morto de manhã. Ou de tombar no meio da rua'', explica. Sem ajuda das pessoas que mais amou, vivendo em dificuldades, seu Antônio ainda sorri. Se recusa a dizer que foi abandonado. ''Não me sinto deixado de lado. O que me dói é a solidão''.





