Ilse Ficagna, 47 anos, mantém a chama da esperança de que o que lhe é mais caro tenha vida, o filho Everton, desaparecido aos 14 anos de idade, em 10 de outubro de 1994, em Corbélia (Oeste do Paraná). Contrariando investigações policiais, Ilse nunca admitiu a possibilidade de que ele tenha sido assassinado, mas até se resignaria com a hipótese porque, acima de tudo, sempre pediu uma resposta: ‘‘O que foi feito de meu filho’’.
O caso Everton é símbolo de pessoas desaparecidas na região e foi uma das causas da Secretaria de Segurança ativar um órgão específico (Sicride) para investigação de desaparecimentos de crianças. Sucederam-se delegados nas investigações e houve até cenas cinematográficas de buscas ao ‘‘corpo’’, com escavações em uma chácara.
Por volta das 19 horas daquele 10 de outubro, Everton pegou sua bicicleta para ir jogar bola com amigos no ginásio de esportes de Corbélia, onde são raros os casos de violência. Ao sair, gritou: ‘‘Um beijo, mãe, volto logo’’. Nunca mais voltou. A bicicleta foi encontrada à margem da BR-369, na periferia da cidade. Durante muito tempo a Polícia fez buscas, encerradas por falta de pistas.
Uma das informações foi de que alguns rapazes de famílias tradicionais de Cascavel, que teriam participando de uma ‘‘festa de cocaína’’ em uma chácara na zona sul da cidade, comentaram que tinham jogado o corpo de Everton em um poço, na chácara, depois de matá-lo em vingança por uma briga que tiveram com seu irmão, Gerson Ficagna. Os grupos especiais Cope e Tigre, da Polícia, e mais operadores e escavadeiras, foram acionados para escavações. Poucas horas depois, as buscas estavam suspensas e a polícia se retirou rapidamente sem maiores explicações, sob a revolta da família proprietária da chácara. Em outra ocasião, um ‘‘vidente’’ informou que Everton havia sido enterrado em uma fazenda de Cascavel. No local foi encontrada a ossada de um animal. No ano passado, o caso foi reaberto por determinação da Secretaria de Segurança, a partir de informações de uma moça que residia em Corbélia na época do desaparecimento.
Para as investigações, foi nomeado o delegado Almeri Pedro Kochinski, do 2º Distrito Policial de Cascavel. Na última sexta-feira, Almeri disse à Folha que ouviu todas as pessoas que já haviam prestado depoimento e outras. No total, foram 84 depoimentos de 57 pessoas. O delegado informou que seu trabalho está encerrado e o inquérito, ‘‘por enquanto’’, arquivado pelo Ministério Público, porque não houve fatos novos. ‘‘Se houver, o caso pode ser reaberto’’, completou.
O pai de Everton é o agricultor Dalmo Ficagna, 56 anos, que sempre tenta disfarçar a dor, não fazendo comentários prolongados. A mãe não aceita a inclusão do caso entre os ‘‘insolúveis’’ e quer ‘‘uma resposta, seja qual for’’. Do filho, além das lembranças, restaram fotos, alguns pares de tênis, uma bola de futebol, um boné e a bicicleta. Apesar do tempo, ela ainda tem esperança de ter uma resposta: ‘‘É o que me resta’’. Ela vem repetindo isso desde a noite daquele 10 de outubro.

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