O protetor do Marco Zero
A placa está lá, com dizeres bonitos, testemunhando que ali, naquela mata, começou Londrina. São dois alqueires de árvores nativas e nascentes de água, paisagem que predominava no Norte do Paraná e que resistiu aos anos, praticamente no centro da cidade.
Desde 1971, o responsável por preservar a mata do Marco Zero é Pedro Dias Barbosa, 72 anos, que acabou virando um personagem da história londrinense e incorpou o lugar ao seu próprio nome, passando a ser conhecido como ''Pedro da Mata'' devido à sua dedicação.
Ele se mudou para o Marco Zero depois de ser contratado pela empresa que durante muitos anos foi dona de uma grande área na região leste, a Anderson Clayton, que mais tarde se tornou Coinbra. Desenvolveu metodologia eficiente para manter o local longe do assédio de desocupados, usuários de drogas, vândalos e prostitutas. Ganhou o respeito de todos. ''Minha missão é preservar isso aqui'', resume.
Em 2006 a Coinbra vendeu todo o imóvel, inclusive a mata, para um grupo imobiliarista que desenvolve um empreendimento no lugar. Como todos os outros funcionários da Coinbra, Pedro da Mata recebeu o acerto, mas não saiu do Marco Zero. ''Eu não podia abandonar. Imagina o que aconteceria sem ninguém para cuidar dessa mata?''
O grupo imobiliarista se prontificou a doar a mata para a prefeitura de Londrina. Em novembro de 2006, os secretários de meio ambiente e de cultura da administração passada declararam que a doação estava concretizada.
Porém, de acordo com o departamento de patrimônio da Secretaria de Gestão Pública da prefeitura, a área ainda não pertence oficialmente ao município por conta de entraves burocráticos. ''O contrato social da empresa que é dona da área está passando por alterações. Por isso ainda não foi possível formalizar a doação'', afirmou o diretor de patrimônio do município, Sebastião Amâncio.
O gerente de desenvolvimento e investimento do grupo Marco Zero, Welington Bacchi de Souza, rebate a informação da prefeitura. ''A área já foi doada, sim. Quando se faz um loteamento é preciso doar um percentual ao município. A mata faz parte da nossa doação, tanto é que nem os impostos relativos a ela, como o IPTU, são pagos por nós'', enfatizou.
Enquanto isso, Pedro da Mata trabalha normalmente, fazendo a ronda, limpando, espantando intrusos, tirando dinheiro do bolso para alguns reparos. ''Faço de alma e de coração. Aqui, tenho a oportunidade de fazer um trabalho cristão. Vejo os usuários de droga que vêm até aqui como meus filhos. Aconselho-os e peço que saiam, sem violência. Se um dia quiserem reconhecer meu trabalho, ficarei feliz. Se não, fiz de bom grado'', finaliza, com sua sabedoria de homem simples. (W.S.)





