O progresso desmanchando a História
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quinta-feira, 22 de setembro de 2005
Guilherme Gouveia<br> Reportagem Local 
Arapongas A pequena vila da estação ferroviária de Arapongas (37 km a Oeste de Londrina) não existe mais. Cinco casas construídas na década de 40 para abrigar funcionários da Companhia São Paulo-Paraná, responsável pela implantação da linha Ourinhos-Cianorte, não passam hoje de restos de madeira e tijolos. A prefeitura de Arapongas, pensando em prolongar sua avenida principal, decidiu autorizar a demolição do local, considerado por antigos ferroviários de grande valor histórico. Uma caixa d'água, que fazia parte do projeto original da estação, fundada em 1º de novembro de 1941, também foi demolida há pouco tempo. ''Qualquer bem ou imóvel que desaparece dessa forma é mais uma página de nossa história que está sendo rasgada e jogada fora'', lamentou o ex-ferroviário Carlos Dias Correa Augusto, diretor administrativo regional da Associação Brasileira de Preservação Ferroviária.
A destruição desses imóveis, que até o mês passado ainda serviam de moradia para famílias de ex-funcionários da linha, causou surpresa dentro da Rede Ferroviária Federal S.A. (RFFSA), empresa que cuidava do transporte ferroviário do País antes do processo de privatização da malha. O engenheiro Mauro Mello Piazzetta, chefe do setor de patrimônio da RFFSA, disse à Folha que o terreno e as casas ainda fazem parte do patrimônio da rede. Em 92, segundo ele, um contrato de alienação autorizava a demolição dos imóveis, desde que a prefeitura cumprisse algumas cláusulas contratuais, como a transferência do pátio de manobra e a reconstrução dos imóveis em outro local. ''A escritura autorizava a destruição das casas, desde que essas condições fossem cumpridas. Mas pelo que sei, nada disso foi realizado pela prefeitura'', afirmou Piazzetta.
O chefe de patrimônio afirmou ainda que a Rede pode entrar na Justiça contra o município e até mesmo reivindicar uma indenização em caso de irregularidade. ''Vamos analisar com calma essa questão, mas se realmente ficar comprovado alguma coisa errada, a Rede vai procurar seus direitos''. Existe a possibilidade, prosseguiu o diretor, de impedir a realização das obras, que devem começar no próximo ano. Além do prolongamento da Avenida Arapongas, a prefeitura pretende fazer a duplicação da Rua Rouxinol. De acordo com o secretário municipal de Obras, Homero Basana, uma empresa de Curitiba foi contratada para fazer o projeto, que estaria em fase final.
Homero preferiu não se pronunciar sobre a destruição das casas, mas confirmou que a prefeitura foi quem autorizou a obra. Os próprios moradores tiveram que cuidar do desmanche, com o direito de revender os entulhos como material de construção. A Folha procurou o advogado Oduvaldo Calixto, procurador jurídico do município, único autorizado a falar sobre o assunto, mas foi informada pela secretária que ele estava viajando a trabalho e que só voltaria na segunda-feira. Segundo os ex-moradores da vila ferroviária, a prefeitura deu uma ajuda de custo no valor de R$ 1 mil para cada família.


