O que desperta um movimento popular? Qual a lógica do processo que leva dezenas, depois centenas, depois milhares de pessoas às ruas?
Os historiadores, sociólogos, antropólogos e psicólogos tentam, cada qual dentro do seu método, decifrar os mistérios dos movimentos coletivos. O fato é que, de tempos em tempos, indiferente às explicações, ela se manifesta.
Ela - a multidão.
Os atos públicos dos cidadãos brasileiros desenham imagens fortes na memória. Conforme a época, os slogans são diferentes, as cores são variadas; mas o turbilhão é parecido.
Em 1932, estudantes lutam nas ruas paulistanas por uma Constituição. Quatro deles acabam mortos. Suas iniciais viram o mote da revolução democrática: M.M.D.C. Trinta e seis anos depois, outro estudante é assassinado pela polícia nas ruas do Rio. Ele se chama Édson Luís de Lima. Em junho de 68, crispados pela aversão ao regime militar, 100 mil opositores fazem passeata e gritam um corajoso ‘‘Abaixo a ditadura!’’ Mas vale lembrar que as multidões jamais serão unanimidades. O genial cronista Nelson Rodrigues escreve com ironia sobre as passeatas de 68. Decididamente, ele não as aprecia. O tempo levaria Nelson e as massas de 68 para lugares de destaque na história.
Em 1975, o jornalista Vladimir Herzog é assassinado durante sessão de torturas no DOI-CODI em São Paulo. O governo fecha ruas do centro da cidade, impede a passagem de carros, dificulta a locomoção dos cidadãos, mas não adianta: a Catedral da Sé fica pequena para os milhares de presentes ao culto ecumênico pela memória de Herzog. A partir dessa manifestação, o país começa a guinar em direção à democracia, mas ainda leva quase dez anos brigando para sepultar a ditadura.
Na mesma Praça da Sé, em janeiro de 1984, o regime militar é invadido por uma multidão vestida de amarelo. Trata-se do primeiro grande comício das ‘‘Diretas Jᒒ. Outros atos públicos viriam, mas não as eleições diretas, vetadas pelo Congresso Nacional.
Amarga ironia acontece em 1992: depois de tanto lutar pela eleição direta, a multidão se levanta para exigir o impeachment do primeiro presidente eleito depois da ditadura. Fernando Collor - atolado em esquema de corrupção - esbraveja, discursa, negocia, mas não dá certo: o amarelo das ditaduras vira a tinta preta dos caras-pintadas. O slogan é simples e forte: ‘‘Fora Collor!’’ O presidente vai embora, destituído pelo Congresso.
Os movimentos populares, como sabia Nelson Rodrigues, não são unanimidades. Prova disso é o Movimento dos Sem-Terra (MST), que ganha força e destaque na década de 90. O lema dos sem-terra é ‘‘Ocupar, resistir, produzir’’. A cor, o vermelho. Por onde passam, os sem-terra semeiam polêmica e encaram conflitos. Há mortos no caminho. Com o surgimento do MST, o Brasil precisa encarar um velho fantasma, jamais exorcizado: a concentração de terra.
Quando menos se espera, os movimentos populares voltam. Ensaiam novas palavras de ordem, tentam reunir mais e mais gente sob a influência de uma idéia, de um pensamento, de um desejo, de uma batalha. Podem ser os mototaxistas em busca de trabalho. Podem ser os universitários em protesto contra o corte de verbas federais. Podem ser adversários das siglas FHC, ACM e FMI, MST ou UDR. Eles sempre voltam e tentam convencer os indecisos: ‘‘Unidos venceremos!’’ E assim escrevem o romance caótico chamado História do Brasil.

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