Está na faixa dos 40 e trabalha numa indústria de refeições comerciais, onde começa a trabalhar diariamente às 10 horas e encerra jornada às 20 horas. Agora, neste outono que em Londrina pouco parece com uma véspera de inverno, Lú, como é chamada pelos colegas de serviço, deixa o trabalho quando a noite já está medonhamente escura. Ela mora na zona leste da cidade e a indústria fica na zona oeste.
– No verão eu me arrisco a ir embora a pé. Agora, Deus me livre.
A frase foi dita meio à toa, em resposta a uma colega que perguntou em que ponto de ônibus Lú costumava esperar o coletivo. Mas foi suficiente para gerar um quase debate entre a turma.
A discussão começou com a escolha do ponto. Lú preferia aquele, distante três quarteirões do trabalho. Uma colega preferia ir mais adiante, por questão de segurança:
– Passa mais carro, é mais iluminado e sempre tem mais pessoas esperando ônibus.
Outros pontos de vista foram colocados sobre a diferença de um e de outro ponto de ônibus. Alguns posicionamentos ganharam apoios, mas houve também contestações. Como também foi possível perceber aqueles que, embora na turma, preferiram falar sobre o tri consquistado por Guga no domingo. Até que o tema se esgotou e fez-se algum tempo de silêncio, quando Lú, que tinha alguma coisa de líder da turma, puxou um assunto nacional:
– E se vier o apagão, heim gente? Ai sim vai ficar ruim. Já pensou eu chegando no meu barraco às nove e meia, naquele escuridão?
– Nem me falem. Vou ter que pedir pro meu marido sair do serviço dele e passar por aqui. Sozinha é que não vou.
E foram outros tantos minutos, parte ainda no ponto, o restante dentro do ônibus e o finalzinho no Terminal Urbano, de acalorada conversa sobre o apagão.
Segurança, desconforto, revolta contra o governo e até uma pontinha de vontade de se mexer, para protestar, entraram no debate. Alguém, do fundionho do ônibus, disse que a culpa era do governo e que ele, o governo, é que deveria ser punido por esta situação. Até o motorista concordou.
Enquanto isso, o governo criava mais um mecanismo para se precaver contra a revolta da população, que poderia terminar na Justiça: algo que ele chamou de Ação Declaratória de Constitucionalidade, que está nos jornais hoje e é mais uma prova de que, o poder, em crise, tem medo da própria sombra.

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