A confiança dos eleitores em seus administradores públicos nunca foi o ponto forte da democracia brasileira e a crise política, iniciada no ano passado com o escândalo do mensalão, protagonizado pelo PT e partidos aliados, reforçou ainda mais essa descrença. Acadêmicos e especialistas em Ciências Sociais apontam que a auto-estima do cidadão oscila conforme o noticiário político e são unânimes em afirmar que o estado de espírito da população influencia diretamente o resultado das eleições. A menos de 10 meses da votação, que irá escolher os novos dirigentes dos governos estaduais e federal, eleitores, políticos e estudiosos tentam analisar o quadro atual para vislumbrar medidas que possam atender suas dúvidas, desejos e anseios.
O professor de Filosofia Política da Faculdade do Norte Novo de Apucarana (Facnopar), Leonardo Prota, acredita que o grau de desalento do eleitor guarda relação direta com uma expectativa ''quase cega'' de que a superação de seus problemas será alcançada externamente, por meio de um político ou de uma legislação específica. ''Faz parte da nossa cultura a idéia de que os outros vão implantar as mudanças por nós, como num passe de mágica. Isso é fruto de uma imaturidade política: em vez de analisar as propostas dos candidatos com serenidade, o eleitor acaba votando em quem promete melhor'', avalia. ''Essa característica meio messiânica da administração pública abre espaço para um imenso desencanto quando os resultados ficam longe do esperado''. O professor acredita que as péssimas condições de vida de grande parte da população fazem aumentar o grau de exposição destes eleitores ao marketing que recobre as promessas eleitoreiras.
De acordo com Prota, o amadurecimento do eleitorado deve passar, em algum momento, pela descoberta de que a sociedade tem mais poder que o Estado e que toda mudança depende do envolvimento ativo de cada cidadão. ''É um círculo vicioso difícil de romper, mas um primeiro passo pode ser o reconhecimento de que a escolha passada não foi adequada e a visualização de que o próximo voto deve se embasar num conhecimento mais profundo sobre a trajetória política do candidato''.
O professor de Ciência Política da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Pedro Roberto Ferreira, também reconhece um estado de apatia entre o eleitorado, mas ressalta que o assunto deve ser tratado sob perspectiva histórica. De acordo com ele, a desilusão do eleitor com a classe política é uma constante de nossa democracia, à exceção de momentos de euforia como o movimento pelas Diretas Já e a primeira eleição direta para presidente após a ditadura militar, na década de 80.
Para Pedro Roberto Ferreira, o diferencial da crise do mensalão é que a apatia alcançou uma parcela da população que sempre se destacou pelo envolvimento político: a militância de esquerda. ''De fato, verifica-se que a desilusão com o PT atingiu especialmente os setores de esquerda, tradicionalmente bastante ativos. De certa forma, este eleitorado está hoje mais parecido com o restante da população''.
Outro fator que tem levado indiferença à população, independentemente de coloração partidária, refere-se à preponderância do marketing sobre a exposição direta das propostas dos candidatos. Segundo o professor da UEL, ''o princípio do marketing político atua contra a conscientização política porque impede o debate aberto entre eleitor e político. Assim, os candidatos são apresentados como produtos, a exemplo do que se vê nos anúncios comerciais de televisão''.
Apesar da decepção da população com a classe política, os especialistas ouvidos pela Folha não acreditam que haverá um crescimento substancial de votos brancos e nulos em 2006. Um dos motivos, segundo a professora de Ciência Política da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Celene Tonella, é que a crise atual ''não foi maior que em outros momentos da nossa história. Acho que teve muita corrupção no governo Fernando Henrique, mas não houve tanta investigação e divulgação pela imprensa, por exemplo''.
Celene Tonella acrescenta que a desilusão deve levar o eleitor a revisar seus critérios de escolha. ''Acredito que o chacoalhão vai servir para aumentar a ponderação na hora do voto''. De acordo com a professora, o caminho mais viável para reverter a descrença nos políticos e melhorar a qualidade dos serviços públicos é o envolvimento direto da população nas instâncias mais próximas ao seu dia-a-dia.
''A democracia representativa está praticamente falida, temos de caminhar para uma democracia participativa porque, se o eleitorado não assumir o controle do mandato e fiscalizar as ações dos dirigentes, as regras sempre serão burladas. E essa participação começa no bairro, na própria comunidade em que vive o cidadão''.

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