Quando se pensa em uma vendedora de raízes e ervas, a imagem que se faz é de uma senhora de mãos enrugadas, com a coluna levemente envergada e o olhar cheio de histórias e mistério - o típico perfil de uma curandeira. Maria Soledad de Oliveira, 65, não tem nenhuma dessa características. Ela é uma simpática e tímida alagoana, que há 40 anos chegou em Londrina acompanhando o marido, o potiguar Manuel Cardoso, de 81 anos. Desde então, o casal se dedica a ajudar as pessoas através de receitas e remédios naturais. É bem provável que quase todos os londrinenses já tenham passado, alguma vez, bem pertinho de dona Maria Soledad. Ela é uma dessas figuras conhecidas, e ao mesmo tempo misteriosas, da cidade.
Logo que chegaram a Londrina, Maria Soledad e Manuel montaram uma barraca numa feira de rua. Doente, Maria demorou para se acostumar com a cidade, o que só aconteceu quando começou a trabalhar com o marido. ''Aí é que eu comecei a conhecer gente e aprender sobre as ervas. Até então eu não conhecia nada. Ele e os fregueses foram me ensinando''. Essa lição já dura 30 anos e há 12, eles montam diariamente uma longa mesa repleta de ervas e raízes na esquina da rua Souza Naves com a Goiás. O ''negócio'' fica de frente para Santa Casa de Londrina, ao lado de uma tradicional farmácia da cidade. Maria Soledad garante que não faz concorrência com o vizinho: ''O dono da farmácia e a Prefeitura deram permissão para a gente ficar aqui''.
Atualmente, é Maria quem cuida da banca. O marido, em função da idade, já não acompanha o ritmo. ''O meu velho ficou mal desses dias prá cá. Anda se confundindo. Por isso eu vou tocando sozinha, como posso''. A casa é sustentada com a aposentadoria dele, ajuda do único filho e pela venda das ervas. Ela conta que no começo ganhava um bom dinheiro, mas que a concorrência fez com que o negócio deixasse de ser tão rentável.
Consultório ambulante - Mas se o movimento caiu, a esperança de encontrar remédios milagrosos permanece. É só ficar alguns minutos na companhia de Maria Soledad para ouvir reclamações como ''acordei com dor de cabeça'', ou ''bati minha perna'', ou ainda ''tenho dor na coluna''. Para cada pedido, uma indicação. Menos para coisa errada, avisa logo Maria. Enquanto a reportagem conversava com ela, um jovem de pouco mais de 20 anos perguntou se ela tinha erva para aborto. Ouviu um sonoro ''não''. Depois ela explicou: ''Eu não vou colaborar com um crime''.
E a explicação puxou uma história. ''Uma vez veio uma senhora pedindo uma erva de aborto para a nora. Eu logo lhe dei um sermão perguntando se ela não tinha vergonha do que estava pedindo. Falei que a alegria de uma vó é o neto, e queria saber porque é que ela não queria que ele viesse ao mundo''. O final foi feliz. A senhora, pensativa, se arrependeu e pediu desculpas pelo pedido.
Maria está acostumada a lidar com pedidos embaraçosos. Tem gente que quase se desmancha em timidez para pedir um remédio mais íntimo, por exemplo, para impotência sexual; outros já chegam detalhando o problema e ainda voltam para contar o resultado. ''Estes chegam até a ser sem-vergonha'', diz timidamente. E para mudar de assunto, ela logo aponta as ervas e raízes mais vendidas: barba-timão, camomila e pau-tenente. Uma é cicatrizante, a outra calmante e a terceira é estimulante, mas também serve para diabetes e dor no corpo.
Fé e cura- As vezes algumas plantas causam surpresa. A raiz de barba-timão, por exemplo, teria curado um câncer, pelo menos na opinião do cliente atendido por Maria. Ele fez o chá, e tempos depois voltou com a notícia. Perguntou se ela acreditava em milagre, e ela logo deu mais um ensinamento. ''É lógico que eu acredito. As ervas já curaram muita gente, mas a fé curou muito mais''. Aliás, este é o principal segredo das plantas na opinião de Maria Soledad: elas curam pela fé.

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