O pior estresse é a miséria, diz sociólogo
A miséria é estressante. Pobre fica cansado de viver, vive preocupado com o dia de amanhã, com o emprego, com a comida, com o futuro do filho... Pobre só descansa quando morre, diz João Batista Filho, professor de Sociologia Jurídica da Unopar. Ele mostra dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que apontam 23 milhões de brasileiros vivendo abaixo da linha da miséria. Em Londrina são mais de 150 mil pessoas nessa situação. Esse tipo de miséria faz a pessoa entrar em parafuso, diz.
Para quem trabalha há anos com pesquisa e fez da periferia sua oficina, explosões como as do vendedor que entrou com o carro no prédio da Justiça do Trabalho não passam de sintomas evidentes de uma sociedade profundamente estressada, concorrencial, que acentua as fraquezas do ser humano. O professor aponta a competição acirrada como um dos grandes males do sistema capitalista. As pessoas são o que tem, não o que são; não têm interesse de ser, mas de ter, observa.
Ele diz que a droga é outro tipo de violência, que começa contra si próprio. Muita gente se droga justamente para não explodir, como fez o cara que botou fogo no carro, explica.
Apesar de insistir que a miséria é o pior estresse do mundo, João Batista reconhece que mesmo entre pessoas que têm estabilidade financeira também existem rompantes de violência: Quem conquistou um emprego precisa lutar para mantê-lo; quem tem um carro precisa de um outro melhor, uma casa maior. E todos têm sempre muito medo de perder o que ganharam, indica. Tem gente que faz qualquer coisa para não perder o poder, o status. Manter tudo isso gera um estresse medonho, diz.
Não existem soluções simples nem mágicas para este homem de 70 anos, que já é avô e que já viu muitas transformações sociais. Acho que o principal é a gente ser justo com a gente mesmo e com os outros. A injustiça gera o maior dos desesperos. Ninguém nasceu para ser infeliz nem para pedir esmolas. Temos direitos de cidadania que conhecemos instintivamente e que nos são negados passo a passo, lamenta. Mesmo assim, ele insiste em continuar fazendo o que sempre fez - ensinando um caminho melhor: A mudança tem que começar por nós, no nosso cantinho. Basta oferecer um ombro para chorar, um aconchego, a possibilidade de um diálogo. É surpreendente quanta gente podia deixar de explodir se simplesmente tivesse com quem conversar. (P. F.)





