O pintor do Ouro Verde
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sexta-feira, 01 de fevereiro de 2013
Micaela Orikasa<br>Reportagem Local 
Diante do Cine Teatro Ouro Verde, no centro de Londrina, Manoel Cavalcante de Souza Neto, de 53 anos, permanece imóvel, reflexivo e com o olhar voltado para o passado. Com uma personalidade tranquila e gestos contidos, ele explica detalhes dos tempos em que o local era sua segunda casa. "Eu sentava nos bancos aqui em frente e ficava horas admirando meu trabalho. Eu sentia o maior orgulho. Em outras ocasiões, sentava na escadaria só para escutar os comentários das pessoas que se aproximavam do painel", recorda Souza, responsável pela pintura dos painéis de divulgação de filmes e espetáculos.
Paulista, nascido em Júlio Mesquita em uma família de cinco irmãos, Souza conta que ainda pequeno passava horas observando as ilustrações dos livros escolares. O lápis de cor e os papéis em branco eram um dos seus passatempos preferidos. "Minhas professoras falavam que eu levava jeito e um dia fiz uma pintura sobre os indígenas para a escola e ganhei um estojo de tinta a óleo, como recompensa", comenta o filho de lavradores.
A família mudou-se para Cambé (Região Metropolitana de Londrina) e, aos 12 anos, Souza teve seu primeiro contato com o cinema. Ele conta que durante uma passagem pelo Cine Rolândia não conseguiu tirar os olhos do painel que anunciava o filme de estreia. Nesse momento, o garoto descobriu sua profissão.
Admirador dos pintores renascentistas, Manoel trocou o lápis de cor pela tinta e aprendeu na prática. "Sou autodidata. Aprendi depois de muito treino e observando o trabalho de grandes artistas. Aos 16 anos, consegui um emprego no Cine Rolândia, mas sem ganhar nada. Um ano depois, a cinematográfica anunciou um corte de gastos e os pintores foram demitidos. Um tempo depois, consegui um emprego no Cine Augustus", conta, se referindo ao espaço em frente às Lojas Americanas, no Calçadão.
Souza permaneceu apenas alguns meses até ser chamado para substituir o pintor de painéis do Cine Vila Rica, que havia se mudado para Minas Gerais. No início da década de 80, foi a vez de cobrir o trabalho de outro artista no Cine Teatro Ouro Verde. "Comecei em 1981 e segui até 2005. Construí minha vida naquele local porque quem exercia esse tipo de trabalho era movido a paixão. O Ouro Verde foi minha grande escola", comenta.
Detalhes
Cada pintura levava até três dias para ficar pronta. O painel de tecido era coberto com tintas de cores primárias, que Souza as combinava e obtinha todos os tons que precisava. Como referência, recebia fotos e cartazes das distribuidoras dos filmes. "Eu quadriculava uma foto 10x15 e a transformava proporcionalmente em uma imagem de até três metros de altura. Eu pensava em cada detalhe e esboçava antes no painel para não ter erro", explica Souza, que tem como característica marcante o perfeccionismo.
"Uma vez um amigo pintor me disse que eu me importava tanto com os detalhes, que até pintei a verruga de um ator", conta, aos risos. Depois de encerrada a exibição, era hora de passar tinta branca por cima e dar vida a outros personagens. "Dava uma dó", lembra.
Para Souza, é quase impossível enumerar quantos painéis ganharam vida, mas ele afirma que o filme "A Lagoa Azul" teve grande importância pela utilização de tons ocre, que era um desafio para ele, assim como o "Caçadores da Arca Perdida", do Indiana Jones. "Também não esqueço a primeira pintura que fiz no Ouro Verde, que foi do filme Xanadu e o de maior bilheteria, que foi o E.T", conta, com entusiasmo.
Além dos filmes, Souza ilustrava os painéis das atividades de palco, como apresentações de teatro, dança e música. Muitos atores, como Antônio Fagundes, Fernanda Montenegro, Malu Mader e Bibi Ferreira, compraram os painéis para levar nas apresentações Brasil afora. "Eles pagavam o custo do material, que era usado para comprar um novo", diz.
Apesar da profissão ter sido "engolida" pela evolução tecnológica, Souza se lamenta apenas pelos tapumes que cobrem hoje a fachada do teatro. "É uma tristeza. Eu estava em casa quando entrou no noticiário a imagem do teatro em chamas. Estremeci inteiro e quase desmaiei. Não tive coragem de entrar lá depois do ocorrido porque para mim foi como se minha casa estivesse incendiando", declara, ao se referir ao dia 12 de fevereiro de 2012.
Manoel está no 3º ano do curso de Artes Visuais na Universidade Estadual de Londrina (UEL), onde trabalha como técnico de laboratório. No final da entrevista, ainda com os olhos voltados para o Ouro Verde, ele revela um sonho. Ver o teatro novamente de portas abertas para que no mesmo palco onde milhares de pessoas vivenciaram momentos de alegria, ele possa apresentar o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) que terá como tema suas pinturas nos painéis. Porque mesmo extinta, essa arte permanece viva na memória de Souza, dos londrinenses e do próprio Ouro Verde.


