Ele caminha devagar, mãos cruzadas às costas, sempre olhando para o chão. O percurso é o mesmo, todos os dias, faça sol ou chuva. Quando vê uma grade no chão, pára e observa cuidadosamente. Alheio aos passantes, que sempre lançam um olhar curioso em sua direção, saca do bolso da calça um carretel com uma linha especial e - amarrado a um arame torcido - um ímã. Armado com esta linhada, faz sua pescaria diária. Ao invés de peixes, porém, seo Francisco Baltazar de Castro, 65 anos, ‘‘pesca’’ moedas perdidas pelas ruas de Londrina, uma atividade que lhe garante a renda extra para as ‘‘misturinhas’’ do dia-a-dia.
Seo Francisco começou a ‘‘pescar’’ moedas há dois anos e meio. Pedreiro aposentado, com problemas na coluna, ele andava quebrando a cabeça para engordar o orçamento doméstico. ‘‘Com R$ 130 de aposentadoria, eu precisava fazer alguma coisa. Mas as costas não deixavam’’, conta. Um dia, no Terminal de Transporte Coletivo, começou a observar que as pessoas deixavam cair várias moedas. Uma boa parte das moedas rolava para as grades de ventilação e seus donos não tentavam recuperá-las.
A idéia de recolher estas moedas perdidas veio logo, mas o método teve que ser aprimorado. ‘‘No começo, eu erguia as grades e descia lá para pegar. Mas era difícil, complicado, demorado’’, fala. Até que lembrou que as moedas eram atraídas pelo ímã. ‘‘Eu tinha um imã grande e redondo em casa. Aí quebrei-o em vários pedaços e fiz várias ímãs menores e achatados, para passar entre as grades’’.
Amarrou dois ímãs - de dois tamanhos diferentes - com arame ‘‘para dar mais firmeza’’ e este, a uma linha de pedreiro, destas usadas para verificar o prumo da construção ‘‘porque é boa e não arrebenta’’. Enrolou seis metros de linha em carretéis comuns, de costura. Pronto. Já tinha sua ferramenta de trabalho.
Durante três meses, seo Francisco trabalhou só nas grades de ventilação do Terminal. ‘‘Um dia, eu fui até o Posto de Saúde pegar o remédio para as costas, e fui olhando as grades. Pesquei várias moedas no caminho e resolvi procurar em outros lugares’’, conta. Com o tempo, foi definindo o percurso que hoje inclui a ruas João Cândido, Sergipe, todo o Calçadão e algumas ruas transversais. Além disto, frequenta também as feiras livres. ‘‘As madames deixam cair umas moedinhas boas por lá. Acho que elas têm vergonha de se agachar para pegar, então deixam para lá. Aí eu vou e pego’’, diz.
Na sua pesca diária, seo Francisco não desdenha nem as moedinhas de um centavo, desprezadas até por mendigos. ‘‘De grão em grão, a galinha enche o papo’’. E diz que, como a verdadeira pescaria, o trabalho também exige paciência e muita calma. ‘‘Às vezes a moeda tá lá meio escondidinha, embaixo da sujeira. Aí eu passo o imã e ela vem’’. Também como na pesca, existe uma época de mais fartura. ‘‘Nos dias de pagamento, as pessoas deixam cair mais moedas. No final do mês, é mais difícil’’, mostra.
Seo Francisco não tem preguiça. A pescaria começa logo cedo, por volta das 7 horas, inclusive aos sábados, domingos e feriados. E fica até a hora do almoço. Nos melhores dias, seu Francisco consegue coletar até R$ 3,00, que são usados para comprar verduras e frutas. ‘‘Sempre passo na mercearia e compro uma misturinha que dou para a mulher fazer’’, explica. Nos piores dias, seu Francisco leva para casa, na Vila Portuguesa (área central de Londrina), pelo menos R$ 1,00. Mas nunca esquece o dia que arrecadou R$ 10. ‘‘Foi a única vez que fiz tanto dinheiro’’, lamenta.
A casa financiada é o maior orgulho - ‘‘já está paga’’ - deste mineiro que chegou ao Paraná em 1942, molecote. ‘‘Vim morar em Cornélio, depois fui para Assis, onde conheci minha esposa, e me casei em Londrina, em 57’’, conta. Aqui, trabalhou em uma fábrica de macarrão, foi saqueiro e servente de pedreiro. ‘‘Aí aprendi a ser pedreiro e trabalhei com isto de 1971 até 1996, quando ‘abri’ minha coluna e tive que parar de trabalhar’’, diz. Das seis filhas, duas ainda moram com ele e a esposa. ‘‘Uma é formada professora e a outra é telefonista na prefeitura’’, orgulha-se.
A esposa não sabe, até hoje, que seo Francisco é um pescador de moedas, mesmo com ele saindo de casa todo dia de manhã. ‘‘Ela nunca perguntou nada e eu nunca falei’’, diz. Mas garante que não é por vergonha. ‘‘É melhor que ficar pedindo por aí ou até roubando’’, afirma. Aliás, ele não se conforma com as pessoas que vê, diariamente, pedindo esmolas. ‘‘Tem homem, mulher, criança, novo e velho. Será que eles não pensaram em nada melhor do que viver pedindo?’’ Sonhos, seo Francisco diz que não tem. ‘‘Só dá para pensar em sobreviver.’’
Mas uma coisa que não revela de jeito nenhum é qual o melhor ponto de pesca. ‘‘É melhor o pessoal não saber, né? Tem uns rapazes que vendem cigarro e passe de ônibus lá na porta do Terminal. Eles me viram pescando e arrumaram ímãs também. Como eles ficam lá o dia todo, o que sobra para mim é só o que cai à noite’’, diz.
Seo Francisco nunca enfrentou má vontade por causa de sua atividade. ‘‘Os donos das loja já se acostumaram comigo. Mas tem uma loja que eu nunca pesco. Fui lá uma vez e o homem veio me dizer que as moedas eram dele, que ele pegava quando fazia faxina na grade’’, diz. Ele também já está acostumado com a curiosidade das pessoas. ‘‘A maioria nem repara em mim. Mas sempre tem um que pergunta o que eu estou fazendo’’. A resposta é sempre a mesma: ‘‘Pescando’’.


PERFIL
Nome: Francisco Baltazar de Castro
Idade: 65 anos
Profissão: pedreiro aposentado e pescador de moedas
Orgulho: a casa financiada e totalmente paga
Sonho: sobreviver
Lição de vida: ‘É melhor pescar moedas do que pedir esmola ou roubar para comer’

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