Londrina tem aproximadamente 30 mil famílias cadastradas nos programas de transferência de renda. Estas mesmas famílias são contempladas pelo Programa do Voluntariado do Paraná (Provopar) para a distribuição de agasalhos nas semanas que antecedem o inverno. À margem deste contingente, porém, existem adultos e crianças que nos dias de frio enfrentam uma cruel prova de resistência. À falta de comida, saneamento básico, casa para morar, emprego, somam-se a falta de roupas e cobertas. Para esta população, o inverno vira sinônimo de tortura.
''Terrível.'' Assim Lucimeire da Conceição, 31 anos, define a situação que vem enfrentando com os filhos desde que os termômetros começaram a registrar quedas de temperatura. ''Recebo R$ 160,00 da aposentadoria do meu marido que morreu'', revela. Ela vive com os filhos de 11, 7 e 5 anos em um pequeno cômodo improvisado em fundo de vale no Jardim Monte Cristo (Zona Leste). Como se não bastasse a umidade e o frio típicos da beira do córrego, o lugar está infestado de carrapatos. Adenilson, o filho do meio de Lucimeire, teve a perna enfaixada no Posto de Saúde por causa das feridas.
No barraco em que os quatro se juntam para dormir, não há banheiro nem cozinha. ''Tenho três cobertores e pouquinho agasalho. A gente dorme tudo junto pra aguentar o frio'', conta Lucimeire.
Na vizinhança, os relatos são parecidos. Silvana de Souza, 30 anos, veio de Tupã (SP) há seis meses com os cinco filhos e o marido, que está desempregado. A única renda da família são os R$ 95,00 do Bolsa-Escola e um ou outro trocado que ela consegue vendendo latinhas. ''Estou sem nada em casa para comer. As crianças estão com o corpo todo machucado, acho que são os carrapatos. Não temos endereço, não temos nada aqui. Estamos vivendo de forma desumana'', define Silvana, enquanto a filha Samara, de 8 anos, se encolhe aos seus pés e se coça inteira.
Na casa de Vilma de Oliveira Peixoto, 33 anos e cinco filhos, as noites de frio são um pesadelo. ''A gente tem uma coberta mais grossa que tem que ficar com minha vó, que é velhinha e veio para cá. Eu e meus irmãos nos cobrimos com lençol'', revela Cauane, a filha de 12 anos. A mãe conta que semana passada teve que dar uma blusa sua para um dos caçulas, de 8 anos, ir para a escola.
Em outro lado da cidade, em um assentamento na Zona Norte, Fernanda Padilha Ribas, de 20 anos, conta que nos dias mais frios recorre aos tapetes para cobrir as crianças, de 3 meses, 2 e 4 anos. ''De madrugada eu coloco a mão neles e estão gelados.'' Já Rosângela Caetano Delfino tem utilizado outro material para amenizar o frio. ''Colocamos plásticos do lado de fora da casa, para tampar um pouco os buracos da parede.'' No ano passado Rosângela ganhou um cobertor do Provopar, e agora a família - de seis pessoas - tem cinco cobertas. ''De madrugada é aquela briga, porque um puxa a coberta do outro.''

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