O passado esquecido na paisagem de Londrina
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 23 de novembro de 2007
Luiz Bartelli Jr<br> Especial para a Folha 
Projeto da UEL faz inventário das obras
''Obra ou construção que se destina a transmitir à posteridade à memória de fato ou pessoa notável''. É assim que o Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa define a palavra monumento. Em Londrina, de acordo com inventário realizado pela diretoria de Patrimônio Cultural, da secretaria municipal de Cultura, há mais de 40 construções dedicadas à memória da cidade e de pessoas ''notáveis''.
O monumento mais recente é bem provável que muitos se lembrem. Inaugurado em maio de deste ano, ''O Memorial do Pioneiro'', localizado na Praça 1º de Maio, notabiliza o chamado pioneiro da cidade. Mas Londrina também tem homenagens ao líder indiano Mahtma Gandhi, em dois monumentos; a ex-presidentes como Getúlio Vargas e Castelo Branco; à Imaculada Conceição; ao viajante; à Bíblia; ao ambientalista Chico Mendes; ao corretor imobiliário; aos evangélicos; às cidades de Nishinomiya, no Japão, e Módena, na Itália; e até mesmo ao ''Espírito Poético'' dos literatos japoneses que moram na cidade. Mas será que os londrinenses os conhecem?
Provavelmente se estas construções deixassem de existir, muitos não notariam sua falta. Pelo menos é o que tem registrado um projeto da Universidade Estadual de Londrina (UEL), que inventaria há cerca de três anos tais construções. O objetivo é revelar como se dá a relação entre a população e os monumentos.
O projeto é ligado ao Inventário e Proteção do Acervo Cultural de Londrina (IPAC/Lda) e trabalha com alunos dos cursos de História e Ciências Sociais da instituição. ''A gente não quer analisar apenas areia e cal, mas o valor simbólico e a importância dos monumentos para as pessoas'', explicou a estudante do 2º ano de História e uma das participantes do projeto, Daniela Reis de Moraes.
De acordo com a estudante, os monumentos são construídos para solidificar uma história que muitas vezes já não gera identificação. ''Nós percebemos que a preservação do monumento por parte da população está muito ligada à como as pessoas interagem com o ambiente em que ele está localizado'', disse Daniella Moraes. ''Mas percebemos ainda, que muitas pessoas nem notavam a existência de alguns monumentos, enquanto outras cobravam medidas de preservação''. Esse é o caso, de acordo com Daniella, do busto à Willie Davids, próximo ao Teatro Ouro Verde, que segundo alguns taxistas do local, está abandonado.
Já segundo a estudante do 4º ano de História, Andreza Sanches Silva, a falta de identificação com os monumentos não se limita à população que transita na região central da cidade. Muitos alunos da UEL, também não notavam a existência dos cerca de seis monumentos do campus.
Andreza destacou ainda a estátua do ''Cristo Libertador'', de Henrique Aragão, que ficava na rotatória próxima ao Centro de Ciências Humanas (CCH) da UEL e que desde que foi retirado para uma reforma na estrutura que o sustentava, há cerca de um ano e meio, teve sua ausência pouco notada. ''A gente entrevistou pessoas que pegam o ônibus diariamente bem em frente ao local onde ficava o Cristo e nem por isso perceberam que ele não estava mais lá'', apontou a estudante.''Outro monumento que me chamou a atenção é o Cubo Carlos Fajardo, localizado bem na entrada do Campus e que muitos pensaram ser uma lixeira'', apontou.
Segundo uma das coordenadoras do projeto, a professora do departamento de Ciências Sociais, Ana Maria Chiarotti de Almeida, a construção de monumentos revela a ação de grupos pela sedimentação de uma memória, que nem sempre representa uma população. ''A forma como o monumento é usado na maioria das cidades representa muito mais a história oficial do que propriamente a história circunstancial, àquela história vivenciada cotidianamente pelo homem comum'', explicou Ana Maria.
A professora ressaltou ainda que delegar novos significados, como o que ocorreu a Praça 1º de Maio (Concha Acústica), que atualmente serve de palco para eventos culturais, é uma das formas de despertar na população identificação e valoração com os monumentos e seus espaços. ''Não há sentido, para as pessoas, a permanência e a manutenção de um monumento sem qualquer identidade e significado'', apontou a professora.


