O Paraná que não fala ao celular
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terça-feira, 01 de julho de 2008
Luciano Augusto<br> Reportagem Local 
Ter e usar um telefone celular é hoje tarefa quase automática para milhões de cidadãos no Brasil. Mas uma década após a privatização do sistema brasileiro de telefonia (Telebrás), existem no país mais de 1,8 mil localidades com até 30 mil habitantes que ainda não têm acesso à tecnologia. Apenas no final do ano passado a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) passou a exigir que as operadoras também atendessem a toda esta clientela. No Paraná, 152 (38%) dos 399 municípios continuam na idade das trevas em telefonia móvel pessoal.
O celular ganhou espaço no Brasil na segunda metada da década de 1990, quando a desestatização do setor expandiu o acesso à tecnologia. Com estratégias cada vez mais agressivas, as operadoras transformaram o aparelho portátil em objeto de desejo dos consumidores e fez dele um dos símbolos do estilo de vida atual. Companheiro de todas as horas, a máquina já não serve apenas para fazer ou receber ligações. Virou aparelho de som, câmera, terminal de internet, agenda, despertador, calculadora...
Tamanho é o poder de atração do celular que as pessoas teimam em comprá-la até mesmo onde não existe sinal do serviço de telefonia móvel pessoal (SMP). Em Nova Santa Bárbara (Norte), uma das cidades paranaenses onde não há torre, a população não se deu por vencida. O morador Nicolai Bittencourt Biscaia, mostra que vale até subir no telhado para conseguir sinal. Mesmo assim, a família lucra vendendo telefones celulares em uma pequena loja de eletrônicos.
Vendo entre 30 e 40 aparelhos por mês. Se o celular funcionasse venderia o triplo, contabiliza o comerciante Valdenir Correa Biscaia. Há 16 anos fritando salgados na praça central, a quituteira Josefina Mendes do Carmo já se acostumou com gente zanzando de um lado para outro com o telefone na mão. De tanto ver, fez um mapa do lugar. Bem no cantinho pega, em frente da lanchonete e perto da Rodoviária também, orienta.
Para não acumular poeira, a comerciante Paula Proscêncio guarda o celular na gaveta de sua loja. Nem mexo com ele porque não funciona mesmo, confidencia. O também empresário José Carlos Diniz da Silva traz o aparelho atado à cintura, mas apenas como acessório. Só uso quando vou para outra cidade, aponta.
Comandando cerca de 150 funcionários em três unidades, Silva comenta que não pode se ausentar do escritório sem deixar alguém encarregado. Quando estou fora, os clientes me procuram e meus encarregados não conseguem me achar, reclama. O prefeito Júlio Aparecido Bittencourt, que também não fala ao celular na prefeitura, engrossa o coro dos descontentes: é um serviço essencial. Ele informa, no entanto, que uma operadora prometeu instalar torre na cidade até outubro.
Em Sapopema, também no Norte, que tem pouco mais de 6,6 mil habitantes, o telefone celular permanece calado 24 horas por dia. Para ter acesso ao serviço, o dono da área onde estão as famosas cachoeiras do Salto das Orquídeas, Alexandre Alexandre Maximiano de Souza, colocou a mão no bolso e construiu sua própria antena. Eu precisava, principalmente na temporada (verão), comenta.
Mesma sorte não tem a professora Scheila Regina de Paula, que leciona na Zona Rural e passa por maus bocados. Quando chove fico isolada porque nem o fixo funciona, aponta. Com 19 anos, o sobrinho dela, Raiff Abrão Mileo, também anda desanimado com seu celular e ainda tem que aturar chateação: só uso mesmo quando vou para alguma festa fora. Aí levo para o caso de precisar. Meus amigos até brincam que eu moro no fim do mundo.
Piadinhas que os 3,7 mil moradores de Santa Cecília do Pavão ouviam diariamente até meados de maio, quando finalmente uma operadora levou o sinal até a cidade. Desde então, um dos pontos comerciais mais movimentados do centro é a loja de celulares. Abrimos no começo de junho e estamos vendendo de três a quatro aparelhos por dia, comemora o gerente, Cleverson de Brito.


