Curitiba - O Papai Noel badalava o sino no calçadão da Rua das Flores. Negro, tinha a pele coberta de pó-de-arroz, que virava uma papa ao se misturar com o suor que lhe caía da testa, enterrada no tradicional chapéu vermelho. Ao ver tal figura, qualquer um se perguntaria por que as inúmeras tentativas de tropicalizar as vestimentas do bom velhinho ainda não deram certas. Mas não era nisso que pensava a senhora de traços nissei.
Ela mostrava-se encantada com aquela figura e com tudo o que a rondava. Aparentava ser sexagenária, mas tinha olhos de criança a descobrir o mundo. Não era uma pessoa da multidão. Era uma pessoa única e se distinguia dos milhares que passavam apressados, trombando-se e sem tempo de ver o que ela via. Sem tempo de ser criança também.
Devagar, foi se aproximando do bom velhinho até tocar-lhe a mão. Foi um toque delicado, cuidadoso, assim como quem quer se aproximar de um passarinho. Papai-Noel assustou-se, mas não muito. Como por encanto, esqueceu o suor e riu para ela, que voltou a tocar-lhe a mão, mas desta vez a segurou, quase firme. Puxou e ele deixou-se levar. Os dois andaram alguns metros por entre a maré de corpos, pernas e pressa, num mundo inalcançável para os outros. Foi um passeio de mãos dadas, silencioso, a contrastar com a balbúrdia pré-natal.
Ela parou de repente, em frente a um artista de rua, o estátua-humana. Olhou para aquele corpo pintado de prateado com os mesmos olhos de criança que tinha dedicado ao Papai Noel. Também não foi correspondida, da primeira vez. Voltou o olhar para o acompanhante vermelho, como a pedir a aprovação e este a deu. Então tocou a mão prateada, furtivamente. Com cuidado. Assim como quem quer se aproximar de um passarinho...

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