Pense num mineiro gente boa, cheio de alegria e trabalhador. É provável que a imagem formada em sua mente tenha tudo a ver com o padeiro, ou melhor, o pãozeiro Generoso Nunes Pereira, 72 anos. ‘‘Pesquisei no dicionário e lá diz que assim deve ser chamado quem entrega pão’’, faz questão de destacar Generoso, que leva – de domingo a domingo, chova ou faça sol – pães, leite e sorrisos para os moradores da Vila Casone e adjacências.
  Há 50 anos no ramo, o pãozeiro de Londrina é um dos últimos representantes de que se tem notícia nessa profissão, que era comum até o final da década de 1970, e foi desaparecendo conforme surgiram as padarias. Quando ele começou, as ruas da cidade ainda eram quase todas de terra e a cidade só tinha oito estabelecimentos que vendiam pães. ‘‘Eu rodava quase o dia inteiro e entregava mais de mil pães. Quando chovia ficava com barro até nos olhos’’, recorda.
  Hoje, são mais de 400 padarias e também é possível comprar pães em supermercados e outros lugares. Isso faz com que a imagem de um senhor sobre uma carrocinha adaptada para o seu serviço e tocando uma buzina seja carregada de nostalgia.
  Acompanhar uma manhã de serviço de Generoso é ter uma aula prática sobre amizade, pois, mais do que clientes, ele cultivou amigos. ‘‘Minha mulher está com problemas de saúde, osteosporose e glaucoma, se eu perder esse serviço não sei nem o que fazer’’, diz, revelando toda a importância que os R$ 15 diários, conquistados com suas vendas, têm no orçamento familiar.
  Rotina com Chumbinho – A empreitada de nosso pãozeiro começa antes do raiar do sol. O relógio aponta 6h15 quando ele chega à padaria – já com os 15 litros de leite que o caminhão de uma cooperativa deixa em sua casa – para comprar as duas centenas de pães que vai revender aos seus fiéis fregueses.
  Porém, ele já está de pé desde as 4 horas, pois não sai de casa sem deixar o café preparado e fazer a leitura da bíblia. Depois, é preciso ir até o pasto buscar seu fiel companheiro de serviço, o cavalo Chumbinho, e preparar a carroça.
  O trajeto é de 20 km. A primeira a receber a saborosa visita é a dona de casa Ildete Maria Delarosa. ‘‘É uma beleza ter o pão na porta e ainda tem a vantagem de ele me acordar quando perco a hora’’, diz com bom humor.
  Alguns quilômetros depois e vários fregueses atendidos, Odete do Carmo de Magalhães o espera com uma xícara de café quente na mão. ‘‘Ele é um grande amigo, todos os dias lhe sirvo um cafezinho.’’
  Entre galopes e passos lentos, Chumbinho vai vencendo o percurso e as entregas são feitas. Alguns clientes já esperam na calçada, outros só aparecem depois das buzinadas. Há também aqueles que preferem não ser incomodados, aí o pãozinho fica pendurado na maçaneta da porta ou vai para a caixa de cartas.
  Alguns minutos depois, e outro amigo o espera com o café pronto. A amizade de Generoso com o comerciante Wilson Lino de Almeida já tem mais de 40 anos. ‘‘Todos os dias o espero com o café e um sanduíche, mas hoje não trouxe o lanche como castigo, porque ele está alguns minutos atrasados’’, brinca Almeida.
  De Montes Claros a Londrina – Tocando em frente, entre um cliente e outro, Generoso conta a sua saga. Nascido em Montes Claros (MG), veio com a família, ainda novinho, para trabalhar nas lavouras de café de Alto Paraná (10 km a leste de Paranavaí). Em 1955, uma grande geada fez a família Pereira, assim como muitas outras, trocar a lavoura pela promissora Londrina.
  Porém, embora pareça um personagem saído dos livros de história, Generoso não está livre dos problemas da vida moderna. Ele conta que até algum tempo atrás saía ainda mais cedo de casa para conseguir atender mais gente. Porém, depois de sofrer alguns assaltos, desistiu de enfrentar a escuridão.
  Outro problema sério é o furto de seus animais. Os bandidos já levaram três cavalos do pãozeiro. Chumbinho o acompanha há três anos. No entanto, Generoso lembra-se bem de Cassemiro, animal que o acompanhou por 13 anos e foi levado por ladrões. ‘‘Até chorei’’, revela, em um dos raros momentos em que lhe falta o sorriso, depois de passar boa parte do percurso rindo.
  Para terminar, o repórter lhe pergunta qual seria o motivo de tanta alegria. A resposta é simples. ‘‘Não sei, nasci assim’’.

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