O tempo é tão frágil quanto a vida, que carregamos como que em vasos de barro. Diante da iminência do sopro vital se apagar na imensidão de nossas misérias, uma década e meia parece quase nada.
Sabedoria do alforje dos místicos, que o fazendeiro de Rondônia, Antonio Pereira, 61 anos, leva na bagagem de uma jornada espiritual, que começou com a cura de um câncer na garganta, e que termina agora, depois de 15 anos de caminhada através de 15 mil quilômetros pelo Brasil, Argentina, Bolívia e Paraguai até Aparecida do Norte (SP), um dos maiores centros de devoção mariana do mundo, onde pagou uma promessa feita à Padroeira do Brasil.
''Agora é hora de voltar para casa e cuidar da minha família'', afirmou o romeiro, prestes a embarcar na rodoviária londrinense para o descanso de sua peregrinação. No destino final em Porto Velho, onde a família mora, os filhos gêmeos, que ficaram olhando o pai desaparecer na estrada aos sete anos de idade, deverão estar esperando o peregrino. Ao invés de duas crianças, ele receberá o abraço saudoso de um advogado e uma professora de 22 anos de idade.
Além da saudade, resumida em sua simplicidade como uma coisa triste, Pereira terá para mostrar aos filhos a imagem de Nossa Senhora Aparecida, que o acompanhou desde o início, e as histórias e os personagens que encontrou ao longo do caminho entre as 527 cidades e seis Estados brasileiros que visitou.
Ao fim da jornada em que andou uma média de 8 horas por dia cerca de 35 quilômetros, não só o tempo passou a ter outra importância, como a distância. É assim que Pereira conta que conheceu outros centros de peregrinações brasileiros, a exemplo de Maracaí (SP), que segundo ele, fica a apenas um dia de viagem de Londrina - uma maneira incomum de mensurar um esforço pela janela de quem contempla um sonho, sendo que lugar algum é longe demais.
Vinte e quatro mochilas, 66 pares de tênis e 31 bonés foram consumidos na estrada. Pereira também foi entrevistado por 1.200 jornais e 519 emissoras de rádio. ''Algumas pessoas que conheci me deram fotos e bilhetes para deixar na sala dos milagres da Basílica de Aparecida, onde deixei 1.200 cartas'', lembrou o peregrino.
Contando com a ajuda das comunidades católicas em sua missão, o pagador de promessa não escapou de algumas dificuldades. ''No Mato Grosso (MT) andava até três dias sem conseguir achar uma cidade para beber água. Cheguei a matar a sede com enxurrada de chuva'', relembra. No entanto, não restou nenhuma queixa. Tudo valeu a pena. ''Quando cheguei em frente de Nossa Senhora, não foi fácil; afinal de contas, eu devia para ela'', concluiu o peregrino, olhando para a estrada de volta dessa uma década e meia de caminhada.

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