O pagador de promessa
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domingo, 10 de setembro de 2006
Erica Shimamura<br>Reportagem Local 
Há 46 anos, o mesmo ritual se repete. Todo 8 de setembro, desde o de 1960, Antônio Ruvina reúne a família, os amigos e centenas de pessoas de diversas localidades para agradecer por uma graça alcançada. Neste dia, a Fazenda União, em Ribeirão Claro (24 km a Leste de Jacarezinho) fica aberta a todos que quiserem compartilhar este momento, por que não dizer sagrado, para os Ruvina.
As festividades começam com a celebração de uma missa na capela da propriedade, seguida de procissão realizada no entorno da fazenda e um almoço oferecido ''para quem aparecer''. A Festa do Ruvina, como é conhecida pela comunidade da cidade, ganhou fama ao longo dos anos e hoje integra o calendário oficial de eventos de Ribeirão Claro. E tem gente que diz que é a mais antiga da cidade.
Mas em torno desta história de agradecimento e fé paira um certo clima de mistério. Ruvina não revela a ninguém qual foi a graça alcançada.''Não posso revelar, prometi a Deus'', diz. De uma forma um pouco difusa, a explicação para a história não satisfaz a curiosidade. ''Quando eu era solteiro achei que não estava muito bom. Fiquei barbudo uns 10 meses e tive medo que me tratassem como louco. Então fiz a intenção e recebi a graça no dia 17 de abril de 1960'', conta.
Na última sexta-feira, mais de 600 pessoas passaram pela Fazenda União para comemorar as homenagens de Ruvina à Nossa Senhora Aparecida. Segundo as explicações do devoto, o dia 8 de setembro é a data do aniversário de Nossa Senhora e a informação foi confirmada pelo padre Germano Treier, que celebra a missa há 35 anos.
A festa, segundo Francisco Carlos da Silva, que é casado com uma das sobrinhas de Ruvina, começa para os familiares e os mais chegados dois dias antes. ''Na quarta-feira matamos um boi para o almoço'', diz. A preparação do evento envolve mais de 30 pessoas da família Ruvina, que trabalham incansavelmente durante três dias. ''Hoje (sexta-feira) começamos às cinco da manhã. Enquanto tiver gente, comida não vai faltar. Se tiver alguém chegando às 16h, estamos fazendo comida'', conta. Para os voluntários, existe uma tradição no trabalho de preparação da festa. Francisco está envolvido há cerca de 20 anos e chegou até a faltar ao trabalho para colaborar. ''São três dias de serviço, mas para nós é uma festa'', conta.
Neste último dia 8, foram utilizados 270 kg de carne, 100 kg de frango, 60 kg de arroz, 30 kg de farinha de trigo para o macarrão caseiro, 60 kg de batata, além de verduras e legumes. Para receber os convidados, a família adquiriu cerca de 500 pratos e talheres. Na opinião de Clélia Leal Dias, pelo fato da festa ter caído em uma sexta-feira ''pouca gente apareceu''. Segundo ela, Ruvina já chegou a receber três mil pessoas.
O almoço é preparado no fundo da casa principal. Começa cedo, pois os alimentos são cozidos em tachos, aquecidos pela queima da lenha. Somente para servir as centenas de convidados, 18 pessoas se revezaram. O cardápio foi composto de arroz, feijão, macarrão caseiro, maionese, bolinho de carne, frango frito, sopa de mandioca e salada.
Diferente de muitas festas em que estão reunidos parentes e em que há aglomeração de pessoas, o clima da festa era de harmonia e o espírito de cooperação prevalecia. Para Maria Estéia Bonato da Silva, que veio de São Paulo somente para o dia, o segredo do encontro é o amor e a união entre as pessoas. ''A comunidade aqui é muito unida e este é o espírito da festa. Ninguém faz nada por obrigação, ninguém reclama estar cansada. Espontaneamente, as pessoas se oferecem para ajudar, talvez até pela consideração que todos têm por seu Ruvina'', diz.
Dona Maria Augusta de Godói, de 76 anos, participa como voluntária desde o primeiro ano, em 1960. Ela ajudava a preparar o almoço, mas hoje comparece somente para celebrar. ''Antes eram as mulheres que lidavam no tacho, hoje são os homens que fazem a comida. Já vi muita gente passar por aqui, estou muito contente mais uma vez'', diz.
Para Elio Cortês, 57 anos, existe uma expectativa todos os anos. ''A gente fica na espera, vem aqui e se diverte, porque eu reencontro as pessoas e os amigos e também gosto de assistir o jogo de futebol'', conta.


