O nascimento de uma nova aldeia guarani
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sexta-feira, 16 de dezembro de 2005
Marta Ortega<br> Reportagem Local 
Abatiá Chegando à fazenda Boa Vista, em Abatiá, ocupada pelos índios, faixas escritas em português e guarani avisam que a propriedade pertence a eles. ''Aqui será nossa futura aldeia. Antigamente essas terras eram de nossos avós e deixaram para nós. Isso aqui é nosso'', afirmam os escritos em guarani, numa das faixas maiores.
Cerca de 40 famílias estão no local desde a semana passada, quando decidiram se separar de outra parte da aldeia, na Reserva Laranjinha, que preferiu continuar na área próxima à fazenda. A divisão do grupo aconteceu após quase três anos de conflito. Segundo eles, algumas famílias não aceitavam as regras impostas pelo cacique Mario Sampaio. O espaço na aldeia (cerca de 117 alqueires) também estaria pequeno para tanta gente.
Na fazenda, os índios estão alojados em três casas e num galpão, numa área de 20 alqueires. Dentro das casas, sacos de roupas pendurados nas paredes, camas improvisadas, fogão e até um aparelho de som.
As crianças correm para nos receber. Pintura no rosto, cocares, cabelos lisos e olhos muito pretos. São mais de 40, de zero a 12 anos. Sem contar os adolescentes e adultos.
A fumaça vinda do fogão à lenha revela que a comida preparada de forma comunitária já começa a ser feita. Os pequenos comem primeiro. Arroz, feijão, macarrão, carne. A comida vem do posto da Funai, que fica na antiga área. ''Por enquanto não está faltando nada. Estamos bem aqui. A área é maior, as crianças têm mais espaço e pretendemos cultivar a terra'', afirma a índia Ismênia da Silva, que se transferiu para a fazenda com o marido e uma filha.
De acordo com os indios, eles foram tirados da terra há 50 anos, depois de uma epidemia de febre. Documentos obtidos pela Funai indicam a descoberta de um cemitério arqueológico no local e demarcam uma área de 1280 alqueires, que pertenceria aos guaranis.
O problema é que a área foi vendida para pequenos produtores que também estão documentados e brigam pela terra.
A luta é confirmada pelo cacique Mario Sampaio. ''Vamos lutar até o fim para manter a área que já era nossa''. Entre os jovens, Éder da Silva é um dos mais conscientes. ''Temos que manter a cultura e os hábitos do nosso povo''.
São quase três anos de conflito entre os índios. Na aldeia, as regras determinadas pelo cacique Mário Sampaio passaram a não ser obedecidas por todos.
Algumas determinações criaram polêmica, como a construção de uma ''cadeia'' para punir índios com problemas alcóolicos. Esta semana dois novos caciques foram eleitos para comandar as 36 famílias que permaneceram na área.
Para reorganizar a reserva, os novos caciques eleitos estão contactando com a Funai para conseguir um novo professor para as crianças, que também continuarão aprendendo o Guarani. ''Não somos contra manter os hábitos indígenas, mas as coisas hoje são diferentes, o que não significa que não vamos preservar nossa cultura''.


