O mundo visto de uma janela do 10º andar
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 09 de novembro de 2001
Walter Ogama 
O prédio é alto e da janela protegida com grades é possível ver parte do mundo. Assim pensa o menino, lá de cima. Ele nasceu e cresceu numa comunidade rural dos arredores de Londrina e pela primeira vez pode subir às alturas. Nunca havia entrado em um elevador e jamais havia experimentado pisar num mundo onde a arquitetura faz as coisas ficarem bonitas, com a mistura de ferro, cimento, plástico, vidro e tantos outros materiais que ele não conhecia.
Na casa simples de madeira onde mora, o piso é de tábuas, que ganha brilho semanalmente com cera comprada em mercado. Ele não havia tido o gosto de pisar num chão forrado de carpete. Os tecidos que fazem as cortinas das janelas são floridos, totalmente diferentes das cores neutras e claras que escondem as enormes laterais de um canto da sala onde ele, aos gritos de ''cuidado para não cair'' do pai, observa o mundo lá fora. Toda de vidro, como se fosse uma janelona, aquela parte da sala, no momento, é mais interessante que os quatro computadores manipulados pelos escriturários.
O menino não está ali por acaso. A ida ao topo do prédio é fruto de uma circunstância. A família precisava regularizar alguns documentos e, por coincidência, um parente que se dispôs a ajudar trabalha naquele escritório, localizado no 10º andar do edifício. Sorte do menino. O dono da empresa, falante e compreensivo, lembra aos presentes: ''Eu também só tive a oportunidade de entrar num elevador e ver o mundo lá embaixo já grandinho. Oh, fulano, trás aqui uma cadeira pro menino. Não tem perigo não, senhor. Daqui ele não cai''.
E o menino ficou, por longos minutos que lhe pareceram minguados segundos, admirando tudo o que seus olhos podiam alcançar: as pessoas, miúdas, correndo de um lado a outro; os carros, como se fossem de brinquedo, cruzando as avenidas; os funcionários do prédio em frente, na mesma altura que ele, carregando pastas, digitando memorandos, fazendo o mundo funcionar.
E nem precisou, naquele dia, o pai comprar pastéis e refrigerante, como tinha que fazer nas outras idas à cidade. O menino se saciou com o prazer de olhar o mundo por cima. Antes, quando passava na frente dos prédios, ele se imaginava como a maioria das pessoas que entravam neles: de sapatos limpos, diferentes dos tênis encardidos pela poeira do local onde mora; de calças e camisas sempre novas e bem passadas; de cabelos sempre penteados.
Mas ali de cima, ele viu que o mundo, numa cidade como Londrina, é de pessoas diferentes: engravatados esbarram em tranquilos cidadãos de bermuda e camiseta; a senhora elegantemente vestida caminha ao lado da moça de jeans; o catador de papel conversa com o gerente da loja. E o menino se sentiu como parte daquela cidade que ele tanto gosta.


