Santa Amélia é um dos menores municípios do Norte Pioneiro, com 3.804 habitantes, de acordo com o último Censo do IBGE. Sua sede é dotada de apenas um acesso asfaltado, pela PR-518, um ramal da PR-436, que liga Bandeirantes a Abatiá. Ao redor da cidade, plantações de algodão, café e grãos. A agricultura é a responsável por movimentar a economia. Pelas ruas, o povo é de boa conversa, cultivando o jeito simples e educado do pessoal do campo. Alguns homens ainda tiram o chapéu para cumprimentar quem passa.
Outra particularidade de Santa Amélia é a forte presença indígena, por conta da existência da Reserva Laranjinha, que abriga representantes da etnia Guarani, bem integrados ao convívio com o ''homem branco''. Não faltam relatos de casamentos do pessoal da aldeia com moradores da cidade.
Irene Lourenço Guergolet, 58 anos, tem história assim. Nasceu na Reserva Laranjinha, filha de mãe guarani e pai caingangue. Cresceu na aldeia, praticando todos os costumes indígenas. O alfabeto só conheceu aos 17 anos, quando finalmente pode realizar o desejo de estudar.
Aos 20, passou a morar em Santa Amélia, trabalhando em casa de família e tocando adiante os estudos, chegando à oitava série antes do casamento com Antônio, agricultor. Há 32 anos eles estão juntos.
Com o dinheiro do sítio que eles mesmo tocam à base de enxada e suor, criaram três filhos: Adriane, médica formada pela Universidade Estadual de Londrina (UEL); Marco Antônio, dentista formado também pela UEL; e João Paulo, que estuda Medicina na Universidade Federal do Paraná.
Com as ''crianças'' crescidas, ela podia pensar em descansar, mas inquietava-lhe o desejo antigo de colocar no papel um romance que tratasse da cultura do povo guarani. Deixando de lado a tecnologia, pegou caneta e começou a escrever um livro, narrando a aventura de Guiri, um jovem índio que deixa a aldeia para conhecer uma cidade grande. No caminho, o rapaz faz amigos e tem a oportunidade de mostrar aos outros um pouco de sua cultura.
A própria Irene tratou de achar garotos com traços físicos semelhantes aos personagens e os fotografou, transformando o rosto de gente de Santa Amélia no rosto dos personagens do livro ''Mundo dos Sonhos - Nhandewa'', uma edição independente, que a própria autora bancou juntando as economias. O filho João Paulo ficou responsável pela digitação e o jornalista Eli Araújo, desta FOLHA, cuidou da revisão e diagramação.
''Misturei a realidade da cultura guarani com um pouco de ficção. Assim, o pessoal pode conhecer um pouco mais sobre os índios'', diz a autora, de jeito tímido.
As mil cópias que ela mandou fazer acabam de ser finalizadas. Irene nem sabe ainda por quanto vai vender cada uma, só sabe que vai sair pela cidade, batendo de porta em porta, oferecendo seu livro. E apesar da timidez, ela deixa escapar que quer mais.
''Quem sabe escrever uma novela. Já mandei até uma carta para o Miguel Falabella, perguntando a ele como eu devia fazer. Mas acho que ele entendeu errado, interpretando que eu queria ser atriz, pois respondeu, com muita cortesia, que eu devia estudar teatro'', conta Irene, ou Kunhã Nimboawy Dju, como a chamam na aldeia guarani.

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