O detento Jaime de Souza, 45 anos, dos quais 20 anos passados na Penitenciária Central do Estado, em Piraquara, conta que sempre se emociona ao passar em frente do Porto Seguro, um condomínio residencial no bairro Uberaba, em Curitiba. ‘‘Quando vejo os prédios penso que ali tem um pouco do meu suor. Eu ajudei a construir aquilo’’, diz. Jaime chegou há dois anos, completamente leigo em construção civil, mas ajudou a erguer o primeiro bloco do condomínio. Construiu o segundo, o terceiro e hoje ajuda na construção do quarto e quinto prédios.
Durante o tempo em que atuou no canteiro de obra, ele não só conquistou a amizade dos outros operários, como foi convidado pela empresa para compor o quadro de funcionários ao sair da prisão, o que deve ocorrer em setembro. ‘‘Não sei se vou aceitar porque quero voltar para a minha terra em Itajaí (SC)’’, diz. O salário de R$ 90,00 ele conta que usa para pagar um plano de saúde, pois pretender fazer uma cirurgia no rosto.
Desde que começou a trabalhar fora, ele conta que vive como se estivesse em liberdade. ‘‘É como se eu estivesse num regime de albergue. Só me sinto preso no sábado e domingo, quando não tem expediente’’, diz. O trabalho, segundo ele, é ‘‘ponto chave’’ para construir uma nova vida. ‘‘Trabalhando não penso bobagem. Para quem quer se regenerar o melhor remédio é a ocupação’’, defende ele, que foi condenado por assaltos.
Davi Oliveira Camargo, 23 anos, é, para os 15 detentos que trabalham no condomínio Porto Seguro, a principal referência de que é possível começar uma nova vida com o trabalho. Ele atuou ali como servente durante sete meses e ao ganhar a liberdade foi contratado pela Coenge há 1 ano e dois meses, com salário de R$ 280,00 mensais. O ex-presidiário, que cumpriu três anos de pena por assaltos, exerce uma função de grande responsabilidade: é o guardião dos prédios em construção. Davi mora com a mulher Luciana, 19 anos, grávida de três meses, em um dos apartamentos do prédio. ‘‘Eu ficava angustiado sem fazer nada e só me ergui por causa do trabalho’’, diz.
O mestre de obras Nilson Moura Ferreira conta que se acostumou com a presença dos detentos. O contato diário se tornou amizade e nos finais de semana ele e outros operários costumam visitar os colegas presos na Colônia, onde fazem churrasco e jogam bola. ‘‘É mais fácil lidar com os presos do que com os operários que estão livres. Os detentos são esforçados e têm muita vontade de vencer’’, diz Nilson. Segundo ele, já passaram pelo canteiro de obra cerca de 300 presidiários, dos quais 25 foram contratados. (E.E.S.)

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