LembrançasCarlos Roternel, a mulher Sandra e a filha Karina, que partiiparam da conquista e a entrada do Assentamento Ireno Alves dos Santos, em Rio Bonito do IguaçuNelson Capucho
Armados com revólveres e rifles, os seguranças da Fazenda Pinhal Ralo (do Grupo Giacomet-Marodin), ocupavam uma casa de madeira a poucos metros do portão de entrada.
- Pelo menos por enquanto as coisas se acalmaram.
Foram vários dias de tensão. Agora os seguranças ficaram sabendo, através de um informante, que os sem-terra acampados na faixa entre a rodovia e uma área de mata, haviam desistido de ocupar a fazenda para evitar um conflito armado. Então os homens relaxaram, encostaram os rifles na parede, sentaram-se ao redor da mesa com uma garrafa de café.
- Vamos jogar um baralho para matar o tempo.
De repente, o susto: um grupo de sem-terra, portando facões e foices entrou na casa e rendeu os seguranças. Sem tempo para reagir, foram feitos prisioneiros e levados ao grande acampamento, que a imprensa já apelidara de ‘‘cidade de lona’’. Cerca de 1.800 famílias aguardavam o momento certo para ocupar a área. Desconfiados de que havia um informante entre os acampados, os líderes espalharam a informação falsa, que tirou a concentração dos vigilantes.
Enquanto marchavam em fila, cercados pelos sem-terra, os seguranças foram obrigados a carregar a bandeira do MST e a cantar o hino do movimento. Era dia 17 de abril de 1996. Os sem-terra, rápidos e organizados, transferiram o acampamento para a sede da fazenda. Em agosto, o número de famílias saltou para 3 mil, numa impressionante aglomeração de barracos. O vermelho das bandeiras do MST contrastava com o negro das lonas. O sonho de um pedaço de terra estava perto, muito perto, de se concretizar. Narrada por Carlos Roternel, 32 anos, um dos moradores do Assentamento Ireno Alves dos Santos, a conquista da Pinhal Ralo ganha contornos épicos.
- Antes de fazer parte do movimento, às vezes eu via aqueles acampamentos na beira das estradas e pensava:‘Essa gente é louca!’
Filho de pequenos agricultores, Carlos conta que resolveu colocar o seu nome num dos cadastros do MST, três anos atrás. Logo foi convocado para a ocupação da Pinhal Ralo. Primeiro, acamparam às margens da PR-158. Depois, invadiram uma faixa da propriedade próxima ao Rio Xagu, que os próprios sem-terra apelidaram de ‘‘Buraco’’.
Hoje, Carlos e a família - a mulher Sandra, os filhos Karina (4 anos) e Rodrigo (2 anos) - moram na mesma casa que foi usada pelos seguranças. A mulher recorda-se emocionada dos momentos difíceis:
- A pior parte foi ficar na rodovia, enfrentando chuva, vento e frio num barraco de lona. A maior preocupação era com a saúde da filha. Quando a gente ficava sabendo que uma criança havia morrido, dava muito medo. Acho que morreram umas oito até a ocupação da sede. Soube também da morte de duas mulheres.
Em meio a tudo isto, nasceu Rodrigo. O pai, Carlos Roternel, estava decidido a ir até o fim. Educado, Carlos é também daquele tipo que parece sincero em tudo o que fala.
- Claro que no meio de tanta gente, como temos aqui, é possível encontrar pessoas de todo tipo. Até bandidos.
Mas as regras do movimento para manter a ordem e a disciplina são duras. Quem erra, pode ser advertido, afastado temporariamente ou expulso. Nos acampamentos, os próprios sem-terra organizam grupos ou indicam pessoas que são responsáveis pela segurança. Um destes indicados, conhecido como Carcará, ficou famoso pela sua atuação como uma espécie de xerife nos primeiros tempos da ocupação.
Embora esteja ocorrendo em uma região onde há marcas do progresso por todos os lados, a reforma agrária no Ireno Alves lembra de alguma forma o desbravamento do Velho Oeste norte-americano ou a colonização do Norte do Paraná. Há um clima de efervescente esperança. As pessoas têm pressa em erguer seus barracos nos lotes recém-conquistados, plantar as primeiras lavouras, criar animais. Pelas estradas de terra - poeira nos dias de sol, lama nos dias de chuva - trafegam carros, cavalos, tratores, bicicletas, motocicletas e, claro, caminhões carregados de madeira, mantimento e adubo.
- Dos 83 mil hectares desta propriedade, apenas 2 mil estavam sendo usados para produção pelos antigos donos. No próximo ano, apesar das falta de recursos, já estaremos plantando em área de 6 a 8 mil hectares - diz Danilo Ferreira de Almeida, 28 anos, um dos coordenadores regionais do MST.
Das 3 mil famílias, algumas desistiram, outras foram encaminhadas para novas ocupações. Cerca de 100 delas romperam com o movimento, fundaram uma associação e iniciaram um assentamento dissidente, na outra ponta da propriedade. Mas 900 já ocupam lotes e aguardam para os próximos dias o documento de posse definitivo expedido pelo Incra. Há ainda 650, acampadas em outro núcleo do assentamento - a 15 quilômetros da sede.
Danilo se orgulha do que está acontecendo em Rio Bonito do Iguaçu:
- É o maior assentamento do mundo! Nem no Japão teve coisa igual.

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