Curitiba - A perda de um filho é, em qualquer circunstância, uma tragédia. Não há consolo para as mães que passaram pela experiência de assistir à vida do filho ser interrompida. Seguir em frente, após irreparável dor, é difícil. Os percalços são inúmeros, entre eles a saudade, a sensação de reviver o momento da tragédia constantemente e a penosa tarefa de se adaptar à nova realidade.

Nos últimos meses, o Brasil assistiu à tristeza de três mães paranaenses. Maria Zélia Del Corso, mãe de Osíris Del Corso, assassinado no Morro do Boi; Maria Cristina Oliveira, mãe da menina Rachel Genofre, encontrada morta dentro de uma mala na Rodoferroviária de Curitiba; e Cristiane Yared, mãe de Gilmar Rafael Yared, jovem que morreu no acidente de carro, possivelmente causado pela imprudência do ex-deputado estadual Fernando Ribas Carli Filho.

A reportagem da FOLHA ouviu as três mulheres para saber como estão superando as barreiras impostas pela morte de seus filhos. Embora sejam três mães em luto por tragédia, cada uma reagiu e enfrenta de forma distinta sua dor.

''Os sentimentos se misturam, intercalando a dor indescritível com a saudade e a revolta. O primeiro sentimento é a vontade de morrer. Sinto-me impotente tentando encontrá-lo de qualquer forma, mas então vejo que outras pessoas precisam de mim e me esforço para continuar'', relatou Maria Zélia.

Com ar sereno, a mãe de Osíris, bancária aposentada, está, agora, retornando aos poucos ao trabalho em sua agência de viagem, localizada no mesmo terreno de sua residência. ''Estamos (a família) procurando nos apoiar, ficando unidos. Sentimos um desfalque muito grande. A gente está tentando levar a vida. Tem dias que eu choro. Quando estou andando na rua a depressão me toma e eu não consigo segurar as lágrimas'', contou.

Já Cristiane está treinando dois administradores para levar adiante sua empresa de festas. Ela quer montar uma fundação para orientar pessoas vítimas de acidentes de trânsito. ''Meu foco de vida mudou completamente. Vou montar um centro de excelência que oriente as pessoas. Vamos tentar criar uma força-tarefa com outros órgãos para que exista, por exemplo, alguém para dar a notícia às famílias que tiveram parentes envolvidos em acidentes'', comentou a mãe de Gilmar Rafael, que pretende ainda lutar para aumentar os valores das multas de trânsito e elevar as penas para pessoas que causam acidentes.

Em alguns casos é a fé que mantém as famílias. ''O que tem ajudado muito é a religião da família. Sentimos que somos carregados por Deus. O Osíris e a Ísis (outra filha) sempre frequentaram a igreja'', lembrou Maria Zélia, católica e frequentadora das paróquias de Nossa Senhora Auxiliadora e do Divino Espírito Santo.

Mesma opinião tem Cristiane. Pastora evangélica, ela tem prazer em relatar seu ''contato direto com Deus''. ''A gente fica com a sensação de que não fez o que devia ter feito. Então, a religião ajuda. Não é a religião que dará a força, mas sim a cumplicidade com Deus'', salientou.

A história das duas mães não converge, não tem ligação factual, mas elas encontraram algumas respostas - se é que existem - ao saber quem pode ter tirado as vidas de seus filhos.

''A prisão dele (do suspeito do assassinato de Osíris) alivia um pouco. Claro que a morte é um prejuízo de vida que jamais será ressarcido, mas nos sentimos mais aliviados. Esperamos agora a condenação para fechar esse ciclo'', declarou Maria Zélia, que concedeu a entrevista antes da reviravolta no caso.

Sem pistas -

Diferente de Cristiane e Maria Zélia, Maria Cristina nem suspeita quem seja a pessoa que matou Rachel e mudou sua vida de vez. Educadora, ela tenta resgatar, em meio à depressão, seus estudos e cursa a faculdade de Pedagogia.

''Não tem como recomeçar. A gente vai empurrando. Eu acompanho o trabalho da polícia, mas não tem pista nenhuma. Isso faz o desespero aumentar'', ressaltou a mãe de Rachel. O crime contra a menina completou oito meses e a polícia ainda não tem informações sobre o autor.

Maria Cristina faz tratamento psiquiátrico, ficou um mês e meio sem trabalhar sob atestado médico e tirou férias, em seguida, para se restabelecer. ''É difícil ter que voltar. A minha filha sempre foi muito apegada à nossa família. É com eles que eu mais posso contar e, se esse monstro for preso ou não, a minha dor vai continuar, mas eu gostaria de justiça. Existem outras famílias e crianças que não merecem passar por uma dor similar'', disse.

Cada uma ao seu jeito, estas mães têm levado a vida adiante. Não há como relatar fidedignamente os sentimentos que afloram. Elas são, porém, o retrato da força materna, que é tão grande quanto a dor que sentem.

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