Se você é daquelas pessoas que jogam lixo nas ruas acreditando que bueiros são uma espécie de buraco negro que dá fim aos detritos, está redondamente enganado. E mais. Poderia passar pelo menos um dia acompanhando o trabalho da equipe de limpadores de bueiro de Londrina para verificar o resultado produzido pelo lixo no subterrâneo da cidade: são milhares de garrafas, latas, embalagens, papéis, fezes e outros objetos, praticamente intactos, prontos a colaborar com o entupimento das galerias pluviais ou desembocar nos rios e fundos de vale da cidade.
  Parte desse prejuízo – infelizmente apenas parte – consegue ser evitado pelo trabalho de ‘‘tatu’’ dos limpadores de bueiros.
Movidos por um profissionalismo exemplar, todos os dias eles trabalham em algumas das bocas-de-lobo mais entupidas da cidade para recolher o lixo que alguém largou no chão e foi carregado pela chuva. E o que poderia ser simples se transforma numa verdadeira operação de guerra.
  Para desobstruir as calçadas e abrir as tampas dos bueiros, injetar um jato d’água com um impacto de 100 kg que visa descompactar a sujeira, acompanhado de um equipamento que suga
o material revolvido, até a lavagem final da área, são necessários 10 homens e cinco equipamentos de grande porte: um caminhão sugador, dois caminhões-pipa (que buscam água no lago Igapó alternadamente), um caminhão de lixo e um trator com retroescavadeira.
  E se você pensa que esse trabalho, literalmente sujo, consegue abater o moral dos limpadores, mais uma vez errou. Durante toda a manhã que a FOLHA acompanhou a limpeza de seis bueiros, o que se viu foi uma equipe integrada, experiente, e que desempenha seu ofício com bom humor mesmo nos momentos mais complicados.
  ‘‘Esse pessoal é exemplar, trabalha com dedicação, com garra, não tem corpo mole, não. Um serviço desse não é qualquer um que encara’’, conta com orgulho o coordenador de limpeza de galerias, Celso Alves da Silva – enquanto seus funcionários
‘desaparecem’ dentro de um bueiro entupido na Avenida Arthur Thomas (Zona Oeste). ‘‘Eles tinham que ser mais reconhecidos, temos gente com 65 anos no batente, o dia todo. E posso sair a qualquer hora que o serviço continua direitinho.’’
  Celso da Silva, que entrou no departamento de galerias há 27 anos como escavador de valas, conta que a lista de espera para desentupir bueiros chega a 600 pedidos. Em sua avaliação, dos aproximadamente
70 mil bueiros de Londrina, cerca de
10 mil estão entupidos.
‘‘Vou na frente da equipe para avaliar e indicar os mais críticos. São tantos pedidos que a gente tem que escolher os piores’’, explica. ‘‘O grau de entupimento é bem maior que a população imagina.’’
  Em razão do acúmulo de sujeira, a equipe consegue limpar aproximadamente 10 bueiros por dia. Nos casos mais críticos, a operação leva cerca de duas horas. ‘‘O certo era ter uma equipe em cada região da cidade’’, afirma.
  O limpador Eliseu de Oliveira, que há 21 anos entra e sai dos bueiros, todos os dias, em troca de um salário de R$ 750 por mês (incluindo a insalubridade), cita com propriedade a lista de objetos encontrados nos aproximadamente 60 mil bueiros que já limpou: vigas de madeira, roupas velhas, quadros de bicicleta, botijões de gás, lixeiras plásticas, restos de máquinas, animais mortos...‘‘Até encerado de plástico, daqueles pretos, a gente encontra com freqüência’’, diz.
  Questionado sobre a origem de tanta sujeira, responde com certa timidez: ‘‘É o povo né, eles jogam muita sujeira na rua. A maioria das pessoas não tem zelo, deixa tudo no meio-fio. Acham que é só limpar, mas não é bem assim, n钒.
  O limpador conta que meses atrás, num bairro da Zona Leste, o trabalho da equipe foi observado de perto por uma dona-de-casa, que estava varrendo a calçada. ‘‘Ela fez um montinho com a sujeira. Foi só a gente entrar no caminhão para ir embora, ela jogou tudo no bueiro.’’
  Oliveira diz que não costuma falar nada quando se depara com situações assim por receio de iniciar uma discussão. ‘‘A gente é funcionário da prefeitura e já é bem criticado. Se reclamar, o povo fica bravo. Mas, na minha opinião, mais vale prevenir que remediar: se todo mundo ajudasse, a gente teria uma cidade mais limpa e com menos problemas de
alagamento e poluição.’’

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