O livreiro é uma raça em extinção
O livreiro é uma raça em extinção
Polêmico e sem papas na língua, a livraria de Aramis Chain se mantém como um pólo de cultura em Curitiba
Eleita a melhor do
País, Livraria do
Chain vai ter sede
nova em 1999
Guilherme Pupo
Descendente de libaneses, embora não seja muçulmano, o livreiro Aramis Chain é um comerciante nato. Já teve mercearia, vendeu palmito na rua, comprou e vendeu telefones. Hoje, a livraria que leva o seu sobrenome está completando 30 anos e já foi eleita a melhor do Brasil.
Os 140 mil títulos disponíveis estão abastecendo a terceira geração de assíduos leitores curitibanos, e quase não cabem nas estantes. Para ampliar o espaço, Chain vai colocar em prática um ambicioso projeto: construir a maior - e manter o título de melhor - livraria da cidade. A nova sede será vizinha da atual, na rua General Carneiro e estrategicamente localizada em frente à Universidade Federal do Paraná.
As obras devem iniciar em 60 dias e a inauguração está prevista para o final de 1999. No futuro prédio de quatro andares, a Livraria do Chain pretende organizar tardes de autógrafos, promover eventos e preservar a cultura regional. Queremos criar um local de encontro das pessoas que gostem de falar de cultura, explica.
Aos 54 anos de idade, casado e com três filhos, o curitibano Chain acorda cedo e trabalha, em média, 14 horas por dia. Só pensou em desistir da empresa depois de ser roubado por cinco funcionários (quase um caminhão de livros) em 1991. Conseguiu recuperar as obras, mas o processo contra os assaltantes ainda está na Justiça.
Revoltado com situação atual do País, ele não economiza críticas ao governo, ao atual sistema educacional, ao nível de cultura dos brasileiros, à Justiça e às leis trabalhistas. Além de suas declarações polêmicas, o livreiro também é conhecido por recusar-se a vender biografias de políticos e personalidades (como os da ex-ministra Zélia Cardoso de Mello e de Pedro Collor, irmão do ex-presidente) e livros sobre homossexualismo. Leia abaixo alguns trechos da entrevista:
Folha - Como você resolveu virar livreiro?
Chain - Há 30 anos sou livreiro. Cinco anos antes, trabalhava com a venda de coleções e enciclopédias. Com o que eu ganhava, pude fazer a faculdade. A partir de 68, já formado em História pela Universidade Federal do Paraná, fui instigado por alguns professores para montar uma livraria (a Nova Ordem). Não pensava que ela fosse dar tanto certo. Apesar de vivermos em um país analfabeto, onde a cultura e a educação não são o primordial, deu certo. Como clientes, não peguei a população paranaense, mas o que há de melhor na população paranaense - clientes que se tornaram fiéis como fio de bigode.
Folha - Qual é a sua avaliação sobre o nível cultural do brasileiro?
Chain - No mesmo período em que ocorreu a Bienal do Livro em São Paulo, houve uma grande feira do livro em Buenos Aires. Lá, a grande tarde de autógrafo foi com o escritor argentino Ernesto Sábato. Aqui, no mesmo período, no mesmo mês, considerada a terceira feira do mundo, as grandes estrelas foram o Ratinho e a Roberta Close. Esse é um exemplo claro da atual situação da cultura brasileira.
Folha - O livreiro é uma raça em extinção?
Chain - Sim. Na minha livraria, poucos foram os funcionários que ficaram desde o começo. A atual legislação trabalhista faz com que o funcionário, depois de oito meses, comece a provocar para ser mandado embora, para ganhar os míseros trocados do Fundo de Garantia - e depois ainda quer voltar ao emprego. Isso vale para todas as profissões. Com as novas leis trabalhistas, não se forma mais ninguém, só se formam oportunistas. Hoje, não há mais o ideal de fazer carreira em uma empresa. O ideal é morrer numa cadeira assistindo um filme, ligado à Internet e comendo um pacote de pipoca.
Folha - O livro pode auxiliar a reverter esse processo?
Chain - O livro desarma essa situação e agride o imbecil e o medíocre. Por isso, as massas, com o atual sistema educacional no Brasil, está longe do livro - porque a literatura vai mexer com eles, e isso parece não interessar. O pai e a mãe são os únicos responsáveis pelo prazer na leitura. Infelizmente, a família está jogando essa responsabilidade para a escola, a sociedade e o governo.
Folha - Você concorda com a greve de professores da Universidade Federal do Paraná?
Chain - Não. Esperamos que em breve os alunos cobrem as aulas dos senhores professores. Não justifica os alunos estarem fora da aula. Eu, por exemplo, não contrataria hoje um acadêmico da Universidade Federal para trabalhar comigo. Se o estudante passou vários meses fora da universidade ele não aprendeu nada e só vai ter o diploma. Alguém está interessado na inteligência e na capacidade do jovem acadêmico?
Folha - A evolução da informática atrapalha o trabalho do livreiro?Chain - O que nós estamos vendo são gerações prontas. É melhor estar ligado a um programa de Internet, de globalização, onde o indivíduo sai de casa para ficar ligado à massa (que é nada), ao barulho que eles chamam de música e à fotocópia que eles chamam de livro. Para o jovem de hoje, não existe mais livro, mas somente o capítulo ou a página.
Folha - Na sua avaliação, como está a produção cultural paranaense?
Chain - O processo autofágico em Curitiba ainda é muito grande. O paranaense precisa largar essa mania de pegar o livro para procurar os erros na obra de outro paranaense. Ele precisa, antes de mais nada, ler o livro, antes de ficar em cima do muro, criticando. Também precisa ler mais sobre o Paraná. O paranaense mal sabe que a história do mate começou aqui.
Folha - Que nomes você destacaria na cultura local?
Chain - Dalton Trevisan, Cristovão Tezza, Wilson Martins, Cecília Westphalen, Brasil Pinheiro Machado, na área de História, e Newton Freire Maia são pessoas que devem ser reverenciadas permanentemente.
Folha - Como você vê o crescimento da violência em Curitiba?
Chain - As balas que vão contra um motorista ou cobrador de ônibus têm que ser direcionadas para os verdadeiros criminosos da nação. É preciso que todos os motoristas fechem o trânsito para as autoridades acordarem, quando há muito tempo está se matando em Curitiba. A situação é que o governo promove a injustiça. O que estamos assistindo é isso: as autoridades não colocando o corpo militar nas ruas. Em consequência, temos uma população desacreditando nas autoridades e em todo o sistema legal. O que hoje é legal e ilegal nessa nação?
Folha - Qual é a sua opinião sobre os saques a supermercados organizados pelos sem terra?
Chain - Todos esses movimentos avassaladores de invasões de terras e saques a supermercados são formados por covardes que estão atacando unicamente as pessoas que estão produzindo. Se eles quiserem invadir, que invadam os latifúndios do parlamentar, do ministro e dos integrantes do executivo.
Folha - Você também é um leitor assíduo, como muitos de seus clientes?
Chain - Gosto de ler principalmente obras sobre a História. Ainda estou aprendendo e vou morrer aprendendo. Não há um autor específico. Um livro complementa o outro, sempre há uma revisão e um novo ponto de vista. Leio bastante à noite, meu único período de folga, e meus amigos sempre me mantém atualizados sobre as novidades.
Folha - Por ser descendente de libaneses, você é muçulmano?
Chain - Todo mundo tem essa curiosidade. Para mim, não há só uma filosofia de vida. Minha mulher é budista, minha mãe é católica e meus parentes são muçulmanos e luteranos. Preferi ficar com todas as religiões - com o que há de melhor em cada uma delas.
Folha - E o crescimento das religiões evangélicas?
Chain - A cultura não é feita só de um livro, não há uma verdade só dentro de um livro, e nem uma verdade só com um homem apenas. A população, dessa maneira, ficará extremamente bitolada, seguindo um só caminho. Isso me faz lembrar os países que seguiram a monocultura e tiveram experiências desastrosas.
Folha - Você também é famoso por censurar livros, como a biografia da ex-ministra Zélia Cardoso de Mello e obras ligadas a temas homossexuais. Por que?
Chain - O político que fez mal à nação não merece uma biografia, pelo menos na minha livraria. Ao mesmo tempo, obedeço alguns princípios religiosos. Recusei o livro Je vous salue, Marie porque é muito fácil chamar Maria de mundana ou colocar Jesus Cristo como amante de Madalena, ou colocar Maomé como pervertido, como na obra de Salman Rushdie (Versos Satânicos). Eu recuso essas obras, porque considero os autores imorais. Eles difamaram personagens já celebrizados na humanidade e que não têm um advogado para se defender.
Folha - Você é a favor da privatização?
Chain - O governo está vendendo apenas o bom patrimônio. O que dá lucro para o governo está sendo privatizado. Isto significa que quem está lá não tem competência para dirigir. Não temos homens competentes no setor público, temos uma grande corrupção. Dessa forma, não há outra saída, a não ser a privatização. É o caso de estarem empurrando o Banco do Estado do Paraná para esse processo. O gerente faz um mau empréstimo, mas não é responsabilizado e não vai para a cadeia.Todo mundo pensa que o Chain é um velho careca e gordo atrás de uma estante
Apesar de vivermos em um país analfabeto, onde a cultura e a educação não são o primordial, a livraria deu certo
Para o jovem de hoje, não existe mais livro, mas somente a fotocópia
Na Bienal do Livro, as grandes estrelas foram o Ratinho e a Roberta Close. Esse é um exemplo claro da atual situação da cultura brasileira





