O jeito zen e a arte de fabricar canoas
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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
Celso Felizardo<br>Reportagem Local 
Londrina - Logo nas primeiras horas da manhã, quando abre a janela da casa no Jardim Guanabara, Marcos Antônio Yanes Cruz se depara com o imponente paredão de prédios do bairro vizinho: a Gleba Palhano, área nobre da zona sul com o maior crescimento vertical de Londrina. O skyline, motivo de orgulho para muitos londrinenses, chega a causar urticárias no descendente de espanhóis de 56 anos que encontra no mato o refúgio para suas angústias. O campo serve como antídoto para o estresse, veneno da cidade que quase o matou.
Ao acordar, não demora a dar partida em sua Caravan rumo a um rancho na Estrada do Limoeiro, distante 30 minutos do centro, onde transforma madeira e fibra de vidro em canoas. Das boas. A atividade, que começou despretensiosa, hoje se tornou profissão e diversão. É reconhecido pela Confederação Brasileira de Canoagem como o maior fabricante do Brasil, o que oferece a maior variedade de modelos. Como a letra do jingle publicitário do ProUni, do governo federal, Marcos "está bem, está zen", mas nem sempre foi assim.
Até os 38 anos, o canoeiro trabalhava "nas coisas mais comuns do homem fazer". Mantinha um escritório de representação comercial no centro de Londrina. De tão apertados, o nó da gravata e os compromissos profissionais, o coração de Marcos não aguentou. No verão de 1996, 30 dias na UTI e a recomendação expressa do médico para que ele parasse de trabalhar. O estresse, inevitavelmente, seria seu algoz. Sem expectativas, construiu sua primeira canoa e foi espairecer no Lago Igapó. Não demorou em aparecer o primeiro pedido. Um amigo gostou da brincadeira e fez a encomenda. Em cinco anos, Marcos já sobrevivia do hobby. Hoje se dá ao luxo de recusar pedidos.
Marcos não é do tipo que exibe os calos nas mãos com orgulho da labuta. Até porque não os tem. Não sente o menor receio ao dizer que não é chegado em trabalhar demais. "Prezo pela qualidade de vida. Dinheiro, não. Por isso estou vivo hoje", comenta. No ano passado, a Canoa e Cia chegou a produzir 20 unidades por mês. Este ano, Marcos não quer ultrapassar o limite de oito. "Acendeu o sinal vermelho, não é isso que eu quero. Coloquei o pé no freio. Não quero trabalhar muito e não preciso de mais do que tenho", afirma, defendendo a filosofia de vida com convicção. Com mais tempo livre, ele se dedica a pescarias e ao contato com a natureza.
Das bacias do Tibagi e Paranapanema, conhece cada nesga de rio: poços, bancos de areia, ilhotas, cachoeiras. De tanto singrar os meandros de águas escuras que serpenteiam a terra vermelha os "rios de chocolate", como definiram amigos europeus ao verem fotos pela internet enjoou. "Já bati demais essa região, agora quero conhecer novos horizontes", planeja.
Com a chegada dos filhos Lara, de 6 anos, e Vinícius, 3, Marcos e a mulher, Adriana, deram uma pausa nas viagens. Agora, com os meninos já crescidos, querem fazer ao menos três "expedições" por ano. "Convite não falta. Quando o destino é atrativo fazemos a entrega das canoas e ficamos uns dias no lugar", conta.


