Curitiba - Prestes a ser banido dos espaços públicos fechados de todo o Paraná, o cigarro também gera um prejuízo ambiental. Assim como pneus, pilhas e lâmpadas, o recolhimento do resíduo do cigarro também deveria ser de responsabilidade do fabricante. Sem a coleta adequada, a bituca colabora para o entupimento das caixas de captação da água da chuva e pode até matar um peixe que se sente atraído a comê-la.
A responsabilidade de coleta pelo fabricante é o entendimento de Saint-Clair Honorato Santos, procurador do Centro de Apoio Operacional (Caop) às Promotorias de Proteção ao Meio Ambiente do Ministério Público Estadual (MP-PR), com base na lei ambiental do Paraná, que legisla sobre o recolhimento de resíduos no Estado.
Segundo Santos, a norma prevê a obrigatoriedade da destinação ao fabricante de qualquer produto contaminante. Por ter em sua composição várias substâncias tóxicas, o cigarro se enquadraria nos termos da lei. A fiscalização cabe ao Instituto Ambiental do Paraná (IAP) que entende que deveria haver esse recolhimento pelas empresas fabricantes, mas, por sua vez, argumenta ser papel das prefeituras criar os planos e implantá-los para que ele ocorra.
A Prefeitura de Curitiba, por meio de sua assessoria de imprensa, informou que nunca recebeu nenhuma orientação ou diretriz nesse sentido. Sem que haja essa preocupação municipal, o órgão estadual deveria fazer a autuação das administrações, o que nunca aconteceu no Paraná. Conforme a assessoria de imprensa do IAP, a cobrança ou fiscalização nunca existiu.
Não havendo cobrança, o resto de cigarro que termina no lixo é recolhido das ruas por garis e vai parar no lixão ou aterro. O outro destino para as bitucas que muitas vezes são levadas pela água da chuva é uma caixa de captação das águas pluviais e, dali, um rio.
Somente no Centro de Curitiba, que representa 10% da área total da cidade, são retirados, anualmente, 1,5 mil metros cúbicos de sujeira das caixas. Por não ser biodegradável, o resto de cigarro une-se aos demais resíduos deixados nas ruas e é levado para um desses mecanismos.
''Com o tempo, o mecanismo entope, veda. A água, sem ter para onde escorrer, transborda, causando alagamento e enchente'', explica Donato Ciorcero, engenheiro civil da gerência de conservação da prefeitura. A limpeza das caixas de captação é feita por um caminhão especial que suga parte do material acumulado nos tubos e o restante é empurrado com uma mangueira de alta pressão.
O destino desse volume, que não é coletado, pode ser um dos rios ao redor da Capital. Segundo o biólogo especialista em rios, Paulo Henrique Carneiro, a cor da bituca atrai os peixes, que, pensando se tratar de um alimento, a come. ''Por ser um material que não se degrada, o peixe morre sem conseguir digerir'', explica. O problema se agrava quanto mais próximo do Litoral.
O resto do cigarro que não se dissolve, juntamente com outros lixos descartados nas ruas ou diretamente nos rios, ainda pode contribuir para o entupimento do fluxo d'água. Ou seja, a bituca de cigarro, displiscentemente descartada em uma rua da cidade, pode ir parar em um curso d'água a quilômetros de distância.

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