Nos olhos de Cirso não é difícil imaginar o dia em que foi sentenciado e encaminhado para a Penitenciária Estadual de Londrina. O resto de homem que resistiu às delegacias, cercos policiais e intrigas de quadrilhas rivais, agora não passa do Cícero, do cubículo oito, da ala quatro. Não passa de um nome e um número. Era mais um dado numa prancheta de controle em que a distribuição dos detentos da Penitenciária é fiscalizada.
Ele olhava a altura dos muros, a largura dos corredores e percebia que tudo em volta era amplo. As dimensões de todos os objetos e ferramentas, inclusive a dor, eram enormes e impensáveis para os cidadãos comuns. Os portões, os cadeados, os pátios, o tom áspero e a insensibilidade, assim como, os corações pareciam revestidos pela indiferença matemática. Cirso nunca soube, mas jamais deixaria de ter um número como estigma e outros como rótulos.
Ele não sabia, mas a sua vida era um amontoado de números. Ele acordaria, rigorosamente, por volta das 7h, sairia das galerias e ficaria no pátio. O almoço servido em fila às 11h30 também seria igual ao de ontem e ao de amanhã. Finalmente, às 16h, seria recolhido até os cubículos. A noite, passaria e amanhã de manhã sua história, como num moinho, recomeçaria. O número 6.045.988 da Carteira de Identidade, assim como o Cadastro de Pessoa Física (CPF) e a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) não importavam, apesar de serem números, não fariam mais parte do seu cotidiano.
Os números do estigma começaram a se incorporar na rua sete de setembro, às 20h, do dia 12/06/2000. Ele foi preso acusado de ter cometido um crime previsto no parágrafo 3º, do artigo 157, do Código Penal. Depois foi investigado no inquérito policial 32/2000 e, em seguida, processado na ação penal nº 20/2001. Neste período, aguardou o julgamento durante 180 dias junto com mais oito presos numa cela da 38º Delegacia Regional de Santo Antônio da Platina. Na sentença foi condenado a cumprir 20 anos de prisão em regime fechado por causa do inciso 1º, do parágrafo 2º, da Lei 8072/90 (Crimes Hediondos).
Durante os sete dias da semana teria direito a uma visita de seus familiares. Os longos corredores com cerca de dois metros de largura e o pátio em que se joga futebol seriam seus domínios. Na época em que foi preso integrava, de acordo com dados do IBGE de 2000 e 1999, o grupo dos desempregados no País estimada em 7,1% e a porcentagem de 12,3% relacionada à taxa de analfabetismo. Cirso, assim como todos a sua volta, ainda não tinham percebido, mas o resto de homem que perambulava pela Penitenciária, havia deixado a condição humana e, como num romance de Kafka, se tornado um número. Um número jogado entre outros tantos números, um número desprovido de sentimento, dor e esperança. Uma estatística, uma dado, enfim, um número submerso entre as pessoas.

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