O homem que se esconde sob panos e tintas
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terça-feira, 23 de janeiro de 2007
Silvana Leão<br> Reportagem Local 
Em meio à movimentação de vendedores ambulantes, trabalhadores apressados, aposentados e pessoas que simplesmente passeiam pelo Calçadão de Londrina, uma imagem se destaca. É a do homem-estátua, que diariamente, há cerca de oito meses, ocupa lugar cativo em frente à Praça Floriano Peixoto. Com frio ou calor, vestimenta e maquiagem são as mesmas: uma túnica em tecido amarelo brilhante, longas luvas, turbante preto e rosto escondido sob uma grossa camada de maquiagem prateada ou dourada. Uma imagem que ao mesmo tempo atrai, causa admiração, assusta e é alvo de brincadeiras de mau gosto.
O homem que se esconde sob panos e tintas é Leonardo Rodrigo Camargo de Moura, 24 anos, morador do Jardim Castelo (Zona Leste). Até o início deste ano ele ganhava a vida como cozinheiro. Foi quando conheceu, em Curitiba, um artista nômade que aceitou ensinar-lhe os segredos de como assemelhar-se a uma escultura. ''Ele é um artista experiente, que já participou até de um campeonato mundial de estátua viva.'' Foi com o amigo que Moura aprendeu, por exemplo, a preparar a maquiagem, um segredo guardado a sete chaves. ''Não uso spray, que é tóxico'', garante.
Mesmo utilizando a mistura caseira, o homem-estátua sofre com a grossa camada que reveste todo o rosto e aumenta o ar de mistério. ''Na hora do calor muito forte, a maquiagem começa a escorrer e entra nos olhos, irritando bastante. Na hora de tirar, só usando detergente'', detalha. O incômodo da roupa que cobre todo o corpo, segundo ele, ''é suportável'', assim como o cansaço de ficar horas a fio em pé sobre um pequeno banco de plástico. ''Só me mexo quando alguém coloca dinheiro no baldinho. Aí cumprimento e entrego uma mensagem e uma bala. Mas às vezes fico na mesma posição mais de 15 minutos, sem que ninguém pare.''
As posições mais comuns são as que fica com os braços abertos; com as mãos juntas, em posição de oração; ou imitando uma estátua romana. Esteja como estiver, a imagem exerce fascínio. ''Sempre que passo por aqui coloco dinheiro, acho interessante. Minha neta de 9 anos adora, e outro dia eu trouxe meu pai, que mora na chácara, e ele ficou até emocionado com a mensagem que recebeu'', conta a garçonete Maria Aparecida Torelli.
As mensagens recebidas por quem colabora são quase sempre versículos da Bíblia. ''Tenho mensagens para católicos e para evangélicos. As pessoas se sentem bem quando lêem, algumas dizem que é como se as mensagens tivessem sido escritas para elas.''
Em alguns dias, Moura tem a companhia da mulher, Andréia Nunes Malafaia, que o conheceu pouco antes dele abandonar caçarolas e temperos. Quando passa o dia por perto, ela cuida para que ele não se distraia no ofício e fique sem comer e beber. Algumas vezes ela o substitui sob a misteriosa fantasia, quando ele é contratado para trabalhar em alguma loja. Andréia conta que sofreu para conseguir encarnar uma estátua: ''Quando a gente está aqui não pode nem rir quando falam com a gente. Eu tinha vergonha, treinava em casa, achei que não fosse conseguir.''
O marido, porém, tem gostado da performance da parceira e já tem planos para o próximo ano: ''Estou pensando em encomendar para ela uma roupa de Estátua da Liberdade, ou de gueixa. Acho que vai ficar bem bonito''.


