O homem que não usa camisa
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quinta-feira, 25 de novembro de 2010
Wilhan Santin 
Já faz algum tempo que a cidade de Marialva, 31 mil habitantes, é afamada por conta de sua produção de uvas finas de mesa Em torno de 50 mil toneladas da fruta saem por ano dessa cidade do Noroeste do Paraná e são apreciadas em todo o País Dados da prefeitura indicam que em torno de sete mil pessoas trabalham diretamente com a uva no município
Porém, o personagem que encontramos andando pelas ruas da cidade não tem nada a ver com a fruticultura Trata-se de um sujeito de boa conversa, com um bocado de histórias para contar e que, simplesmente, há mais ou menos 25 anos, decidiu que não usaria mais camisa, camiseta, blusa, blazer ou qualquer coisa do gênero Desde então, chova ou faça sol, frio ou calor, Manuel Gonçalves Pereira, 68 anos, usa apenas bermuda jeans e sandálias
Filho de portugueses, o terceiro de quatro irmãos, acabou herdando o apelido de ''Português'', que é como o chamam os colegas das partidas de tranca na Praça Santos Dumont Bigode, cabelos compridos e abdômen em dia para não fazer feio, ele explica que considera quente o lugar onde vive, por isso abandonou as camisas
''Trabalhava como caminhoneiro e tratorista Aí, sabe como é, nessas profissões, por conta do forte calor que faz por aqui, já não se costuma usar camisa Então, parei de vez'', simplifica
Mas pelo menos alguns dias de frio por ano são comuns no Noroeste E aí? ''Frio de verdade mesmo faz de madrugada, quando uso cobertas Porém, ao amanhecer, tomo meu banho gelado - pois só tomo banho gelado - e vou andar por aí, sem camisa, não importa a temperatura Não sinto frio'', complementa Manuel
Ele garante ter usado ''traje completo'' em raríssimas oportunidades nesses anos ''No velório da minha mãe, como sinal de respeito, uma vez para ir ao Fórum, e em outras duas ou três oportunidades Até no banco entro Só não frequento restaurantes em respeito às pessoas que lá estão e podem não gostar de me ver sem camisa'', explica
Antes de sossegar em Marialva, Português foi funcionário da Copel Por ser solteiro, pulava de cidade em cidade, trabalhando em pequenas hidrelétricas cobrindo férias dos colegas
Recorda que trabalhava em Foz do Iguaçu, uma pequena cidade naquela época, quando a Ponte da Amizade - que liga Brasil ao Paraguai - foi inaugurada, em meados da década de 1960
''Achava um desperdício uma ponte daquele tamanho, pois não passava quase ninguém Veja agora o movimento que tem lá! Outra mudança dos tempos: cuidava de uma usininha pequena Hoje, pertinho dela está nada mais nada menos que Itaipu'', comenta
Depois que deixou a Companhia de Energia, Manuel fez de tudo um pouco até chegar a caminhoneiro e tratorista e decidir abandonar as camisas
Mora em uma casa simples, cercada de árvores, de frente para um terreno de um hectare, que pertence à sua família, um verdadeiro bosque, pelo qual zela Gosta do verde Tem dois filhos já adultos e continua solteiro Não usa celular, tampouco internet Quando necessário, recorre ao orelhão E garante, é feliz


