Londrina - Quem aciona o interruptor nos dias de hoje mal pode imaginar as dificuldades que os moradores enfrentaram no início da colonização de Londrina para iluminar as suas casas. Em vários pontos da cidade não havia energia elétrica e nem geradores e os moradores precisavam recorrer aos lampiões de querosene ou às velas. Uma das pessoas que ajudou a combater a escuridão na cidade foi Guilherme Demartino, de 94 anos. Ele trabalhou na primeira fábrica de velas de Londrina, a Sete Sinos. Morador da Vila Casoni (área central), ele relatou que naquele tempo ainda havia muita mata fechada e eram poucas casas que dispunham de geradores.
Demartino nasceu no município de Igaraçu do Tietê (SP) e se mudou para Cambará em 1923, onde seus pais trabalharam em lavouras de café. Em 1927 se mudou para Santa Mariana, depois Uraí e se recorda que chegou a Londrina quase dez anos depois de sua fundação. "Foi logo depois de uma geada. A região toda onde morava tinha sofrido perdas e ninguém tinha dinheiro. Vim a Londrina em busca de oportunidades", relembrou.
Quando chegou à cidade, ele viu uma cidade efervescente. "Tinha muito movimento. Eram pessoas andando para lá e para cá o tempo todo. Fui pedir emprego em uma fábrica de velas, que ficava perto da antiga estação ferroviária (onde hoje é o Museu Histórico Padre Carlos Weiss)", destacou. Demartino disse que foi fácil aprender a fabricar velas, ofício que exerceu até dez anos atrás. "Era só colocar a parafina em um tubo e a gente tinha uma máquina para colocar os pavios", relatou, gesticulando como se ainda estivesse na ativa.
A fábrica comprava a parafina de diversos locais no Estado. Porém, segundo Martino, para determinados tipos de velas, eles reaproveitavam a parafina das velas dos cemitérios. "Eu rodava os cemitérios a cada 20 dias e coletava de 500 a mil quilos de ‘sucata’ (como ele chama as velas derretidas). Era o tempo de acabar a produção e já tinha que coletar o material, que eu negociava com os funcionários dos cemitérios", relembrou.
Martino disse que para ir de casa até o trabalho levava de 30 minutos a 1 hora caminhando. "Naquela época as ruas não eram asfaltadas e quando chovia não tinha como ir ao trabalho e a produção era interrompida", explicou.
Quando comprou uma caminhonete, passou a vender as velas por todo o Estado. "Era uma época que não havia estradas asfaltadas. Quando o carro quebrava no caminho, se não tivesse uma oficina por perto, tínhamos que esperar até alguém passar para rebocar a caminhonete", explicou.

Companhia de Terras
Demartino relembrou de períodos históricos, como o período da Segunda Guerra Mundial. Descendente de italianos, ele só podia transitar entre as cidades munido de um salvo-conduto, que era emitido pela Comarca de Londrina. "Nunca fui preso. A gente sabia que era uma ditadura, mas era uma época em que havia muita honestidade nas pessoas. Hoje isso já não existe como era naquela época."
O ex-fabricante de velas contou que chegou a encontrar algumas personalidades históricas da Companhia de Terras do Norte do Paraná, como Arthur Thomas, George Craig Smith. Porém, revelou que nunca teve uma oportunidade de conversar com eles. "Mas eles pareciam ser bastante simpáticos", observou. A imagem que não sai de sua memória é a cena dos vendedores e compradores de terras que existiam na cidade. "Eles chegavam nos ônibus da Garcia a todo instante", ressaltou.
Viúvo há cerca de um mês e meio, Demartino pouco sai de sua residência. Não possui telefone e passa o dia a observar as pessoas que circulam em frente de sua casa. Mal sabem os vizinhos da influência que ele teve sobre o cotidiano dos londrinenses. "Eu não imaginava que Londrina iria crescer desse jeito", concluiu.

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