O homem que encontrou a liberdade atrás das grades
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terça-feira, 04 de março de 2008
Fernando Rocha Faro<br> Reportagem Local 
A seleção para motorista no interior de São Paulo atraiu mais de cem candidatos para apenas cinco vagas. Retrato de um País que luta contra o desemprego. Classificado como melhor colocado entre todos os concorrentes, um homem de 41 anos, com experiência no ramo, perde a oportunidade de trabalho quando se descobre que ele era um foragido da Justiça. Afinal, qual empresário correria esse risco?
Esta é a situação do motorista Sidnei Barbosa dos Santos, nascido em Londrina e que morou por muitos anos em Indaiatuba (SP). Cansado de perder chances de ter a vida de volta à normalidade, Santos decidiu tomar uma atitude que muitos podem considerar drástica, mas que ele encarou com bastante naturalidade. No último fim-de-semana ele resolveu tomar um ônibus com destino a Londrina e, orientado por um advogado, entregar-se à polícia.
A intenção dele é pagar o restante da pena à qual foi condenado por um crime cometido há 17 anos. Ele conta que foi num momento de desespero, quando estava desempregado, com mulher e um filho para sustentar, que achou que a solução era cometer um assalto.
Ele invadiu uma academia e levau um pouco de dinheiro do caixa mas foi preso em seguida. A permanência atrás das grades não durou. Logo aproveitou uma fuga em massa para voltar às ruas e deixar o Paraná.
Em Indaiatuba, por falta de oportunidade de emprego, passou a viver de bicos, com apoio da mulher, que é faxineira. Por várias vezes, passou por testes em empresas, mas nunca voltava depois que o setor de recursos humanos pedia o atestado de antecedentes criminais.
Um lance de azar há seis anos levou Sidnei dos Santos de volta à cadeia. Fazendo um bico como motorista, envolveu-se num acidente de trânsito de pequena gravidade na Rua Sergipe, exatamente na frente da 10 Subdivisão Policial, na Área Central da cidade. A batida não trouxe danos graves aos veículos, mas provocou uma nova reviravolta na vida do motorista.
Após a polícia ser acionada, foi constatado que ele era um fugitivo. Resultado: encaminhamento para a carceragem do 2 º Distrito Policial. A mesma prisão onde ele se encontra hoje, depois de apresentar-se à polícia de livre e espontânea vontade.
A condenação pelo crime de roubo rendeu uma pena de seis anos. Um ano e oito meses depois ele foi transferido para a Colônia Penal Agrícola de Piraquara (CPA), na Região Metropolitana de Curitiba. Só que a permanência no regime semi-aberto não durou muito. Com desavenças com outros detentos, ele decidiu não voltar mais para a CPA e seguir para a casa de parentes no interior paulista.
A vida humilde e tranquila que conseguia levar com a esposa e os três filhos, de 12, 16 e 21 anos, foi interrompida há poucos dias. A decisão de voltar para a cadeia pode ser explicada com a convicção do motorista de que ele nunca mais conseguiria um emprego enquanto não quitasse sua pena. Ao ser questionado se contrataria um foragido da Justiça, caso ele fosse um empresário, Santos não duvidou: ''Não. Acho que eles estão certos de dar o emprego para outro''.
Desde que voltou a ser preso, Santos divide uma cela com outros quatro homens e passa os dias dedicando-se às orações é à leitura da Bíblia. A serenidade, aliás, é uma das características mais marcantes da personalidade de Santos. Os sonhos para o futuro são conseguir qualquer tipo de trabalho formal e, ainda, comprar um ''terreninho'' e montar um negócio próprio, como uma banca de frutas.
Também está decidido a não deixar Londrina depois que voltar às ruas. Quanto à possibilidade de voltar a viver com a família, diz que a decisão vai depender da esposa e dos filhos. ''Só sei que quero viver muito. Com fé em Deus, quando sair vou conseguir arrumar emprego. A verdade é que a vida no crime só leva a dois lugares: cadeia ou cemitério'', arremata o motorista, que decidiu enfrentar a primeira opção para fugir, o quanto puder, da segunda.


