As ruas estão cheias de meninos e meninas que, separados do convívio familiar, entregam-se a uma vida de delitos. É o caminho aparentemente mais simples para a maioria, mas não àqueles que nascem com uma qualidade rara, chamada pelos especilistas de resiliência. Para estes, os desafios da vida, por mais difíceis que se mostrem, são sempre um aprendizado.
  Só isto explica como uma criança, surpreendida pela solidão aos 10 anos, superou a falta de tudo com trabalho e espírito solidário. José dos Reis Santos, 52 anos, morador do Jardim Pérola, em Cornélio Procópio, tinha tudo para dar errado. E deu certo. ‘‘Meu pai morreu quando eu tinha uns cinco anos. Era o segundo casamento da minha mãe, que ficou bastante desorientada. Nos mudamos para outra cidade e depois de uns anos ela resolveu partir levando minha irmã, mais nova. O recado que ela deixou com uma vizinha foi o que me moveu ao longo da vida: ‘Não estou te levando porque você é um homem’, ela disse’’, relata Santos, hoje presidente da União das Associações de Moradores do município, membro de conselhos municipais e dono de um senso de comunidade incomum.
  Para ganhar a vida, encarou pequenos serviços, trabalhou em circo e na roça, até conseguir juntar dinheiro para a passagem até São Paulo. A esta altura, porém, já tinha descoberto o lado mais cruel do ser humano. ‘‘Quando minha mãe foi embora, morávamos em um pequeno cômodo alugado. Como eu não tinha dinheiro, tive que sair de lá, e passei a perambular pelas casas de amigos. Ficava por uns dias, até perceber as atitudes discriminatórias das famílias. As pessoas falam de amor ao próximo, mas o que existe na verdade é amor ao próprio.’’
  Mesmo morando nas ruas, ele nunca admitiu receber benefícios de graça. ‘‘Sempre tive muito orgulho próprio, procurava prestar pequenos serviços, e me sentia gratificado.’’ Em vez de viver de lamentos, Santos aprendeu a fazer brincadeiras da própria desgraça, ‘‘para não cair em depressão’’. Continuar freqüentando a escola foi quase impossível. ‘‘Eu não tinha nem roupas adequadas. Naquela época era muito difícil. A discriminação vinha até das professoras.’’
  A vida escolar foi encerrada na 7ªsérie, mas a paixão pelas letras fez Santos se debruçar sobre os livros. O primeiro foi comprado quando conseguiu um emprego de cabeleireiro dentro de um banco, cuidando da imagem dos novos funcionários. ‘‘O salário era baixo mas eu me virava, vendia semijóias, cosméticos, e com qualquer dinheiro que sobrava comprava livros. Costumo dizer que sou um autodidata contumaz’’. Esta força de vontade o fez aprender a falar e a escrever certo, e também lhe deu a profissão de técnico em eletrônica, que o sustentou a maior parte da vida.
  Em 2005, Santos publicou um livro de poesias, em parceria com a professora de Letras Maria Aparecida de Fátima Miguel. Em um computador instalado na sala de sua casa simples, escreve diariamente. ‘‘Quero ver se em maio publico outro livro, talvez um romance que estou preparando’’, diz, enquanto mostra o certificado de classificação em um concurso literário de Portugal.
  Casado, pai de cinco filhos, o paulista que chegou a Cornélio há cerca de 16 anos, fugindo da violência da grande cidade, logo se destacou por suas idéias diferentes. ‘‘Quando assumi a presidência da associação do bairro era tudo muito precário. Fizemos convênios com vários profissionais, os moradores tinham carteirinhas e, com elas, conseguiam descontos em médicos, no comércio. Em troca, cada um colaborava com R$ 1,00 por mês. Com o que juntávamos, podíamos ajudar aqueles que não tinham nada.’’
  Quem o procurava, porém, não recebia nada de mão beijada. ‘‘Sempre propunha a prestação de algum serviço. Ninguém é completamente inútil. No fim, não tinha mais terreno sujo, as ruas estavam sempre limpas no nosso bairro e tínhamos uma biblioteca com 500 exemplares. Até um jornalzinho para conscientizar ecologicamente a população a gente tinha.’’
  Atualmente o seu mandato na União das Associações já venceu, mas até agora ninguém se interessou pelo cargo. ‘‘Nossa sociedade é muito dispersa, não está organizada para lutar por melhorias e pela garantia de direitos. Tem sempre alguém querendo se dar bem, com sentimentos egocêntricos e imediatistas’’, ensina.
  Há cinco anos Santos reencontrou a mãe em uma cidade do interior de Minas Gerais. Mais uma vez sua reação surpreendeu. ‘‘Não senti rancor. Me senti feliz e pude mostrar a ela que tinha razão quando disse que eu era um homem.’’


QUAL RAZÃO
  Qual razão teria a concessão da vida
  neste mundo imenso de valores tão complexos?
  A todos há o quinhão de extensas feridas,
  que incidem em cada um por toda vida.
  Hábitos, costumes e pensamentos,
  pessoas, atitudes e coerência,
  misturam-se as esperanças e as experiências
  que tornam a razão da própria vida.
  Não as entendo, o quanto ferem meus sentidos,
  que essas dores aguçam a minha intolerância e medos.
  E qual segredo então desvendaria,
  pra entender de fato seus enredos.
  Busca-se nos meandros desta existência,
  o que me exerceria a coerência,
  de ser feliz nas adversidades deste tempo.
  Ou se outro tempo esperaria.
(José dos Reis Santos)

mockup