O homem é o melhor amigo do cão
PUBLICAÇÃO
sábado, 30 de novembro de 2002
Phoenix Finardi<br>Reportagem local 
Todo dia de manhã era a mesma coisa: Argemiro tinha que caminhar olhando o chão para não pisar nos ''montinhos'' frescos deixados pelo Bilu na calçada. Bilu era o cachorrinho da dona Clara, vizinha de Argemiro num condomínio residencial, no centro da cidade. Naquele dia, saindo distraído... ploft, pisão certeiro. Xingando, Argemiro tomou uma decisão: ia acabar com aquilo.
No dia seguinte, assim que dona Clara desceu, Argemiro foi falar com ela:
A senhora não acha o fim da picada trazer o cachorro prá fazer cocô aqui na frente do prédio, todo santo dia? Porque ele não faz cocô em casa?
Era só o que me faltava! Meta-se com sua vida e nos deixe em paz. A rua é pública, justificou dona Clara. Enquanto os dois discutiam, Bilu fazia suas necessidades. Vendo que conversa não adiantava, Argemiro procurou o síndico do prédio. Sem sucesso.
Da janela, Argemiro fervia de indignação: Essa mulher quer guerra e vai ter guerra! Com um velho conhecido (velho mesmo!) Argemiro conseguiu uma certa quantidade de rapé, aquele pozinho que faz espirrar. Para garantir, comprou alguns pacotes de pimenta do reino moída. Misturou tudo... estava pronta a fórmula mágica! Tarde da noite, Argemiro desceu e depois de se certificar que ninguém estava olhando, espalhou a mistura pela calçada, bem no lugar preferido do Bilu.
Na manhã seguinte, vitória! Mal saiu do prédio e começou a farejar a calçada, Bilu teve um ataque de espirro e tosse. Dona Clara teve que levá-lo para cima, rapidinho e a calçada, pela primeira vez, ficou limpinha. Só que à noite choveu e a água acabou com a arma secreta de Argemiro. No dia seguinte, Bilu estava de volta.
Argemiro não era homem de desistir assim, facilmente. Teve outra idéia''luminosa'': fotografou, da janela, Bilu cometendo o ''crime'' e mandou as provas do flagrante para a prefeitura, pedindo providências. Não tinha uma lei que proibia isso? Os dias passaram e nada.
Depois de passar dois dias analisando os fatos, Argemiro resolveu mudar a estratégia. Surpreendeu dona Clara surgindo na calçada vestido de faxineiro e com uma sacolinha de plástico na mão. Assim que o Bilu fez o que tinha para fazer, Argemiro juntou o cocô na sacolinha e jogou no lixo, ali do lado, enquanto explicava para o porteiro, que olhava estupefato:
Sou o faxineiro particular do Bilu, sabia? Como a dona Clara não limpa a sujeira dele, ele me contratou para segui-los e ir limpando.
Dona Clara engoliu a raiva, pegou Bilu no colo e voltou para casa. Ficou uma semana sem aparecer na rua com Bilu mas quando voltou, trazia a sacolinha de plástico na mão. Do alto, na janela, Argemiro comemorou a vitória. Mais tarde devolveu a roupa emprestada para a faxineira do prédio.


