O Homem de R$ 5 milhões
PUBLICAÇÃO
domingo, 06 de fevereiro de 2005
RUTH BOLOGNESE 
O Homem de R$ 5 milhões
Que Deus me perdoe por desejar o mal dos outros, mas o ex-deputado Tony Garcia merecia ficar vendo o sol nascer quadrado até que aprendesse a respeitar a história recente e as instituições brasileiras. E a imprensa, que reproduziu as patacoadas dele como verdades incontestáveis, deveria ficar junto na cela.
Este Tony Garcia não foi preso por causa do Consórcio Garibaldi, que lesou centenas de consorciados de carros 1.0, o que seria uma razão mais do que plausível. Ele foi preso por determinação da Justiça Federal com base em gravações telefônicas, autorizadas judicialmente, e que o envolvem em crimes muito mais graves do que calote em brasileiro pobre.
Então, 'seu' Tony, antes de se auto-qualificar como 'preso político', que tal distribuir cópias para a imprensa da degravação dos grampos feitos em seus telefones? Aí, sim, os eleitores que o colocaram na Assembléia Legislativa, e o povo do Paraná, poderiam ficar penalizados pelo calvário de 85 dias de prisão no Centro de Operações Policiais Especiais (Cope), em Curitiba.
Preso Político
A auto-qualificação de 'preso político' de Tony Garcia só porque o adversário dele na disputa de votos, Paulo Pimentel, divulgou as falcatruas do Consórcio Garibaldi nos jornais e TVs é, no mínimo, um desrespeito àqueles que lutaram contra a ditadura militar. Enquanto os presos políticos brasileiros eram torturados nos quartéis, o jovem Tony, com 'ipsolon', bailava de smoking nos clubes da alta sociedade curitibana, onde fazia sucesso pela estampa. Pimentel e os meios de comunicação dele não tem nada a ver com esta história. Denúncias de jornais não prendem ninguém, até porque a função de jornalista (e também de adversários políticos) é apenas a de apontar os fatos. O resto é com a polícia e a Justiça.
Mas vamos em frente: não existe, na história política brasileira, qualquer preso político que tenha desembolsado R$ 5 milhões para sair da prisão. Em primeiro lugar porque, durante a ditadura militar, as prisões eram feitas na calada da noite e os advogados corriam risco de vida até por entrar com um simples habeas-corpus, que dirá propor pagamento de fiança. Em segundo lugar porque os presos políticos, por simples questão de origem eram, em sua grande maioria, uns pés-rapados querendo salvar o mundo.
Origem dos milhões
Quando a imprensa concede espaço para declarações estapafúrdias de políticos do naipe de Tony Garcia incorre em erros graves, porque confunde a opinião pública, embaralha os fatos e promove comparações absurdas que só interessam aos advogados de defesa dele. Antes reproduzir os detalhes do 'sofrimento' e das 'injustiças' que Tony diz ter passado neste período tão negro da vida dele, a imprensa deveria era solicitar esclarecimentos sobre a origem dos R$ 5 milhões pagos pela fiança que abriu a porta do xadrez. Ao que se saiba, além de sócio de consórcio falido, o Tony nunca teve qualquer profissão que permitisse amealhar tão significativo patrimônio. E o salário de deputado, que desfrutou por quatro anos, não seria suficiente para chegar a tanto.
As manifestações do ex-deputado não faltam apenas com a verdade e mancham cada voto que ele recebeu como candidato a senador, prefeito de Curitiba e deputado. Compõem, também, um caso flagrante de afronta à Justiça e descaracterizam as ações do Ministério Público Federal. Com a palavra a Associação dos Magistrados Federais (Amafe).


