O homem da funerária
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 23 de setembro de 2002
Sid Sauer<BR>Equipe da Folha 
Campo Mourão - Armandão era gente boa. Só a cara e o jeito é que não ajudavam muito. Sempre sério e com a testa franzida, ele parecia viver de mau humor. Para piorar, ele não tirava uma roupa toda preta. Isso, é verdade, não ajudava muito. Mas era só o jeitão dele. O que complicou mesmo a imagem do Armandão foi aquele emprego na funerária.
''Na funerária, Dinho? Agora é que vão falar que você é esquisito'', reagiu a mãe ao saber do primeiro emprego do filho. Armandão, porém, gostou do serviço. Tanto que foi ficando por lá, ano após ano. De funcionário, virou sócio e, quando foram ver, já era o dono do negócio.
Com o passar dos anos, com os cabelos começando a cair e as rugas surgindo, Armandão foi ficando ainda mais estranho. Não faltaram os comentários de que ele dormia num caixão. E na ''urna'' mais cara do estabelecimento. Armandão se irritava com esse tipo de comentário. Ainda mais porque aquele caixão caro só estava em exposição para impressionar a família de um certo ricaço da cidade. ''Uma hora ele vai precisar'', pensava.
Diziam também que Armandão havia começado a andar com os braços esticados, como um sonâmbulo, e com as pernas sem mexer as articulações dos joelhos. Bem ao estilo Frankstein. Muitos foram à funerária para ver se isso era verdade. Como Armandão ficava quase sempre sentado, a maioria nem teve coragem de ficar esperando pra ver.
Tinha gente que jurava que Armandão sugava o sangue dos corpos antes de preparar o funeral. Diziam mais: que ele se irritava e cobrava mais caro dos corpos que chegavam à funerária já com o sangue coagulado. É claro que nunca provaram nada disso. Falaram também que Armandão virava lobisomem nas sextas de lua cheia. Por via das dúvidas, teve quem preferisse esperar amanhecer para comprar o caixão de um parente morto de madrugada.
Chegaram a falar que Armandão dava uma mãozinha para acelerar a morte de doentes e acidentados. Certa vez ele teria presenciado até um caso de catalepsia, a doença em que a pessoa volta a si depois de ficar horas como se estivesse morta. Com o corpo já no caixão, em meio ao velório, Armandão só deu uma disfarçada e com sua pesada mão direita, teria matado o pobre homem sufocado. Puro folclore.
Só nunca contaram aquela vez que Armandão passou apurado devido à escassez de mortos. Ninguém morria naquele final de ano. Armandão tinha que pagar o salário do mês e o 13º salário e, ''movimento'' que é bom, nada. Acabou, como um bom mortal, num empréstimo bancário. ''E que você me oferece em troca, Armandão?'', perguntou o gerente. A resposta foi direta e sincera: ''Juro que quando sua hora chegar, não boto a mão no seu corpo''.


