''Meu trabalho aqui é mexer com viciados, bandidos e ladrões, mas em 35 anos nunca precisei chamar a polícia.'' Esse é o resumo que Pedro Dias Barbosa, ou ''Pedro da Mata'', 68 anos, faz da sua missão de proteger os dois alqueires de mata nativa do Marco Zero de Londrina, o ''berço da cidade'', onde a comitiva de George Craig Smith montou acampamento em 21 de agosto de 1929.
Localizada na Avenida Teodoro Victorelli (Zona Leste), entre as Vilas Fraternidade e Santa Terezinha, a mata é muito procurada por usuários de drogas e garotas de programa. Em poucos minutos de caminhada entre árvores centenárias e uma nascente de água, é possível encontrar inúmeras caixas de fósforo, utilizadas para acender os cachimbos de craque ou cigarros de maconha, e diversas peças de roupas, inclusive íntimas.
Nesse contexto, é até difícil acreditar que apenas um homem protege o local desde 1971. Porém, Seu Pedro parece ter nascido para isso. Amante da natureza, ele dá explicações sobre a importância de cada planta que está ali com a fluência de um biólogo, mesmo sem nunca ter sentado em uma carteira escolar. ''Isso aqui é um pedacinho de mim, estou disposto a dar a vida para defender esse ambiente'', resume.
Contratado pela empresa Anderson Clayton (atual Coinbra), antiga proprietária do terreno, como segurança patrimonial, ele também faz eventuais reparos e a limpeza do local, trabalho que é constantemente paralisado para ''espantar'' algum invasor.
Até a entrevista para a FOLHA foi interrompida pelos ''visitantes''. Indo em direção a um grupo de três pessoas, Seu Pedro avisou que é proibido entrar ali e pediu, por favor, que se retirassem. O pedido foi atendido prontamente.
Em seguida, ele explicou sobre seu método de abordagem. ''O chão aqui é todo encoberto de palha, para incendiar tudo isso é muito fácil. Se eu fosse ignorante com eles, a resposta, sem dúvida, seria fogo. Por isso, trato a todos com educação''.
Para quem precisa de muitos bens materiais para ficar satisfeito, Pedro da Mata dá uma lição de humildade. Para ele, a natureza do Marco Zero é um verdadeiro tesouro. Até a cura de uma doença é atribuída a Deus e à amiga Guaritá.
''Tem uma árvore que é a minha confidente, a Guaritá. Há um tempo atrás sofri muito devido a uma bronquite. Certo dia estava muito mal, vendo a morte se aproximar. Fui até à árvore, abracei-a com força e comecei a falar com Deus, foi quando recebi uma energia muito forte e me senti renovado'', conta Seu Pedro, sem conseguir segurar as lágrimas.
Outra companheira é uma Peroba de 320 anos e mais de 40 metros de altura, de acordo com medição feita pelos bombeiros, garante Pedro da Mata. ''É uma senhorita muito bonita''.
Em clima de despedida, ele acha que em breve perderá seu posto, pois os empresários que compraram a área doaram o Marco Zero à prefeitura.
''Já falaram em transformar a mata num bosque, mas isso não pode acontecer. Tudo tem que ficar como está, senão muitas espécies podem morrer. O solo tem que continuar com esta cobertura de folha e palha para que as sementes germinem. Atualmente a vida se renova constantemente na mata, pode ver que está cheio de perobinhas'', alerta.
Os projetos para o futuro próximo do Marco Zero estão sendo coordenados pela Secretária de Meio Ambiente (Sema) e Secretária Municipal de Cultura. Segundo o arquiteto Carlos Augusto da Silva, da Sema, a mata não deve sofrer muitas alterações. ''Ainda estamos em fase de estudos. A greve dos servidores atrasou o nosso serviço, mas posso dizer que não queremos mexer muito na vegetação, apenas criar condições para que o local seja mais visitado'', explicou.
Luciano Bitencourt, secretário municipal de Cultura, vai além. Ele explica que além de não alterar as características da vegetação, existe a idéia de que Pedro continue no local. ''De alguma forma ele deve permanecer ali. Temos que manter o Pedro da Mata ligado ao futuro parque. Ainda não sabemos como, mas queremos que ele fique''.

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