O 'grupo dos 5' seminaristas malteses chegou ao Brasil em dezembro de 1961, no Rio de Janeiro, às 16 horas. ''Havíamos saído da Europa com temperatura abaixo de zero, quando desci do avião recebi um bafo quente, pensei que era por causa da longa viagem, mas o termômetro marcava 43 graus. Suava demais, nunca havia passado um calor tão grande'', conta Bernardo.
Da 'Cidade Maravilhosa', Bernardo lembra de homens negros, de shorts, cantando em uma obra de construção civil, todos muito alegres. Também traz na memória o momento do jantar, na casa de padres. Era sexta-feira, e havia carne. Naquele tempo, na Europa, não se comia carne às sextas-feiras. Mas os malteses lembraram do conselho dado pelo reitor: ''No Brasil, vocês vão viver como os brasileiros e comer o que eles comem''.
Do Rio, foram para São Paulo. ''Ficamos espantados ao ver que na capital paulista havia prédios, ruas asfaltadas, carros por todos os lados e gente branca'', relembra José, que pensava ver no Brasil muitos negros, pessoas pobres morrendo de fome, crianças barrigudinhas, com esquistossomose (barriga d'água).
De São Paulo, pegaram um ônibus para Londrina. ''Na viagem, era tudo muito estranho. Aquelas pessoas agachadas na frente dos bares de beira de estrada, cheios de pó, todos muito sujos, tomando uma coisa preta, num copinho de vidro. O que seria aquilo? Não tomamos, de medo, e depois ficamos sabendo que era café'', sorri José, rememorando a 'peripécia'.
''Não havia asfalto, a floresta era imensa dos dois lados da estrada, a lama vermelha, os caminhões e ônibus deslizando pra lá e pra cá; cachorro, cavalo, pessoas, tudo vermelho de sujeira. Os banheiros eram umas casinhas, com buracos embaixo. Fiquei muito impressionado, na minha terra natal não tem nada disso'', completa Bernardo.
Os cinco jovens seminaristas chegaram na antiga rodoviária de Londrina, na Rua Sergipe, onde hoje está o Museu de Arte. Todos de batina, suados e já devidamente 'agraciados' pelo barro e pela poeira da terra vermelha, além dos 'malditos' mosquitos que não paravam de sugar o sangue novo dos estrangeiros. Ninguém os esperava. O que fazer, onde ficava a catedral? Tudo isso durante o forte calor de dezembro.
Mais uma vez, a Providência veio em auxílio dos intrépidos malteses. Um padre ia passando pela Sergipe, num jipe, e viu os cinco ali, com caras de apavoramento, parou e falou... em maltês. Era muita sorte. Tratava-se do padre dominicano Walter Ebejer, pároco de Faxinal, que hoje é bispo de União da Vitória. ''Ele nos viu de batina e pernas de fora (estávamos de shorts, por causa do calor) e deu uma bronca, porque aqui só podia andar de calça por baixo da batina'', conta, sorrindo, Bernardo.
Ele os levou até a catedral, e dom Geraldo abriu a porta, espantado: ''Vocês chegaram?!'' O padre de São Paulo não havia comunicado nada. Outra sorte (ou será a mão de Deus agindo novamente) é que havia na casa a Irmã Ana - ''uma freira muito boazinha, que ficou muito contente com a nossa chegada'', diz José.
Irmã Ana mandou todos tomarem banho, mas quando viviam em Malta ouviram durante muitos anos que não se pode tomar banho com o corpo quente. Como a poeira era muita, abriram uma exceção.
''A irmã preparou um almoço muito gostoso. Na mesa, tinha uma fruta estranha, pensava que era melão. Dom Geraldo falava: 'ma-mão bom, ma-mão bom, ma-mão buono'. Bernardo tentava repetir: 'mau-mau, mau-mau, mau-mau'. Pensávamos que era alguma coisa ruim da tribo dos mau-mau que na época barbarizava nas terras africanas'', diverte-se José. Bernardo completa: ''Não gostei do mamão, achei muito ruim, nunca havia comido, mas lembrei do conselho do reitor e... comi''. (D.G.J.)

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