Após sair do trabalho, Heitor costuma fazer o mesmo caminho para chegar em casa. Ao entardecer, lá está ele, andando nas ruas de Foz do Iguaçu sempre com uma máquina fotográfica a tiracolo, na esperança de alcançar o estrelato através do seu hobby. Acredita que vai fotografar alguma catástrofe, como um acidente cinematográfico ou, quem sabe, um desconhecido caindo de um prédio.
Enquanto aguarda esse dia, continua a colecionar imagens. Meses atrás, fotografou quatro meninos que moram na favela da Guarda Mirim, no mesmo bairro onde mora. O quarteto percebeu a presença do intruso assim que o flash foi disparado. Afoitos, pediram cópias da fotografia. Receberam como resposta uma vaga promessa... Heitor não gostava de ceder as fotos.
Passados alguns dias, um dos meninos, o menor do grupo, foi até ao portão da residência de Heitor. ‘‘Tio, cadê a foto?’’, perguntou de forma acanhada, com receio de irritar o vizinho. Recebeu como resposta a justificativa que elas não estavam prontas. No dia seguinte, a mesma pergunta. ‘‘Tio, as fotos estão prontas?’’, repetiu o moleque. A mesma explicação... A cena se repetiu pelas semanas seguintes mas, com o tempo, o desejo da criança foi sucumbido por brincadeiras de rua.
Meses depois, a ansiedade mudou de lado. Heitor revelou o filme, mas não encontrava aquele que tantas vezes o havia procurado. Começou a bater na porta de alguns barracos de madeira até descobrir o ‘‘número’’ da moradia do garoto, porém preferiu não entregar as fotografias aos irmãos, nem aos pais dele. Deixou apenas um recado: queria entregar o álbum pessoalmente. Minutos depois, a campainha da casa do ‘‘andarilho’’ tocou seguidamente por alguns segundos.
‘‘Tio, sou eu, o Fernando. Vim buscar as fotos’’, gritou. Heitor as entregou sem imaginar a reação do menino. Enquanto o garoto permanecia calado, olhando as fotografias, Heitor tentava descobrir seus pensamentos. Dez minutos depois, o silêncio do encontro foi quebrado. ‘‘São as primeiras fotos da minha vida, tio. Posso ficar com uma?’’, indagou o moleque, de uns oito anos. Antes de receber a resposta, Fernando saiu em disparada, chamando seus pais e amigos para mostrar a eles a prova de sua existência. E também para tirar um sorriso de todos os espectadores daquela cena que valeria um filme.

mockup