Lucilia Okamura
De Londrina
Seu João dos Santos, de 59 anos, levanta cedo todos os dias. Às 6h30 ele já está no aterro sanitário, à espera dos caminhões que vêm descarregar o lixo recolhido na cidade. Usando um enorme cesto de plástico, ele separa papéis, plásticos e outros materiais recicláveis que serão vendidos mais tarde. Essa é a rotina que seu João cumpre há 23 anos. Ele é um dos mais antigos garimpeiros do Lixão de Londrina e com o dinheiro que ganha vendendo objetos que outros jogam fora, conseguiu criar os oito filhos, comprar um carro e construir uma casa, no Jardim Santa Fé, zona leste.
Localizado na Estrada do Limoeiro, também na zona leste, o Lixão ocupa uma área grande, onde estão espalhados desde restos de alimentos, papéis, latas de refrigerantes e até animais mortos. A paisagem não é das mais atraentes e o cheiro é insuportável. Mesmo enfrentando esse cotidiano insalubre, João não liga. ‘‘Eu dou razão para quem vem de fora, porque o lixo fede mesmo. Mas eu já estou acostumado’’, afirma. ‘‘Se precisar, eu pego a minha marmita e como lá no meio daquele monte de lixo’’, diz, bem-humorado e tranquilo.
Mas João nem sempre mostrou essa segurança. Nos dois primeiros anos, ele lembra que não suportava o cheiro. ‘‘Só comia em casa, nem pensava em trazer almoço aqui’’, conta. ‘‘E quando estava em casa, se eu lembrava do cheiro, já perdia a fome.’’
João nasceu em Ibiporã (14 quilômetros a leste de Londrina) e, durante muitos anos, trabalhou como bóia-fria. Ele começou a garimpar o lixo em 76, quando chegou a Londrina com a família, vinda do interior de São Paulo. Na época, sem emprego, foi convidado por um amigo para trabalhar no Lixão e aceitou. ‘‘Ficava meio perdido no começo, com tanto lixo. Nem sabia direito o que catava primeiro, mas aprendi logo’’. Orgulhoso, ele conta que nunca ficou doente. ‘‘Só tive uns cortes por causa dos cacos de vidro e das latas’’, diz.
Comparando o lixo dos anos 70 com o de hoje, o garimpeiro constata que antigamente o faturamento era melhor. ‘‘Vinha mais coisa pra cá. Hoje, por causa do desemprego, tem muita gente que já recolhe tudo na cidade e sobra pouco pra gente’’, analisa.
Como faz parte do grupo dos mais antigos garimpeiros, João tem certos privilégios: pode, por exemplo, recolher e vender qualquer tipo de lixo. Os mais novos, explica, têm direito apenas a pegar alumínio e garrafas descartáveis. Graças a esse respeito aos mais antigos, nunca houve conflitos entre os garimpeiros, segundo João. Hoje, com a venda dos materiais recicláveis, o garimpeiro diz que consegue ganhar cerca de R$ 200,00 por semana. ‘‘Em qual emprego eu ia tirar esse dinheiro?, questiona.
Mesmo trabalhando tanto tempo no lixão, João afirma que nunca encontrou nada de interessante. Só lembra de uma vez que achou uma pequena pedra dourada e todos os colegas falaram que era ouro. ‘‘Fiquei até imaginando o que podia comprar com a pedra’’, confessa. O sonho se desfez quando ele foi comprovar a ‘‘pureza’’ do material usando uma faca e descobriu que a pedra, na verdade, estava apenas pintada de dourado.
Em uma outra ocasião, uma ‘‘madame’’ veio correndo atrás do caminhão de lixo porque a empregada dela havia jogado, por engano, um pacote contendo dólares e jóias. Um dos filhos de João, que acompanhava o pai no trabalho, ajudou a mulher a procurar e acabou encontrando o pacote. ‘‘Ele fez todo o serviço, mas ela não queria dar um centavo de recompensa. Depois de muita insistência minha, ela acabou dando R$ 50,00’’, conta.
O garimpeiro não esquece também das duas vezes que encontrou fetos em saquinhos de lixo. ‘‘Dá uma sensação ruim. É a pior coisa que a gente pode encontrar por aqui’’, afirma.
João diz com convicção que não acha seu trabalho diferente de outros e que nunca teve vergonha de dizer que é garimpeiro de lixo. A família, ressalta, sempre lhe deu apoio. Casado há 37 anos com Maria de Lurdes, eles têm oito filhos, 35 netos e está ansioso à espera de um bisneto - uma das netas está grávida.
Sobre o casamento, o garimpeiro diz que Maria de Lurdes é a mulher da vida dele. Ele fala com carinho da esposa e conta que a conheceu em um baile, em Uraí. Na época, ele tinha 21 anos e ela, 16. ‘‘Eu era muito namorador, mas quando encontrei ela, a gente ficou junto e nunca mais se separou’’, diz.
A mulher, aliás, também tem uma profissão diferente: é lavadora de túmulos. ‘‘Os vizinhos brincam, mas eu não ligo’’, conta. Dos oito filhos, quatro trabalham também no lixão. Todos eles são casados, por isso, João e a mulher moram sozinhos em uma casa de madeira de quatro cômodos, que ele construiu no Jardim Santa Fé. É lá que ele costuma reunir os filhos, genros, noras e netos, aos domingos para um churrasco. A sua diversão, afirma, é ficar conversando com os filhos e brincando com os netos. ‘‘A família é muito importante pra mim’’.
Além da casa, outro patrimônio que João conseguiu garimpando lixo é uma Caravan, ano 81, que ele usa só para passear. Para trabalhar, ele vai de bicicleta. ‘‘É pertinho, dá uns 40 minutos pedalando’’, conta.

PERFIL
Nome: João dos Santos
Idade: 59 anos
Profissão: garimpeiro de lixo
Rendimento: R$ 200,00 por semana
Estado Civil: casado com Maria de Lurdes
Família: 8 filhos e 35 netos
Hobby: reunir a família aos domingos

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