O momento é de antagonismo. Nunca, como agora, as crianças receberam tanto, em termos materiais, por parte dos pais. Mas ao mesmo tempo, nunca estas mesmas crianças sentiram-se tão desamparadas e tiveram tanta dificuldade de lidar com as frustrações. As explicações para este preocupante paradoxo são muitas, porém uma delas tem sido vista como verdadeira ameaça, à medida em que pode comprometer o futuro da família, considerada a base da sociedade: o modelo formado por pai, mãe e filho único. Cada vez mais comum, a opção pelo menor núcleo familiar possível preocupa porque abre caminho para problemas complexos, como a criação de uma geração individualista.
Os inúmeros desafios que envolvem a criação e educação de um ser humano, entre eles as dificuldades financeiras, respaldam, em grande parte, este comportamento moderno. ''Os pais querem dar todas as possibilidades para um filho, tudo o que não tiveram. Mas na ânsia de fazer o melhor, acabam pecando sob alguns aspectos, como por exemplo terceirizar a educação dos filhos, mesmo quando eles são únicos. O resultado pode ser a criação de pessoas insatisfeitas, que querem sempre mais, que não sabem dividir, nem lidar com frustrações'', alerta a psicóloga clínica Susy Cristine Santos.
Como a criança se torna, o tempo todo, o centro das atenções da família e como não há irmãos com quem dividir e aprender a administrar conflitos, o surgimento de uma pessoa individualista é quase inevitável. Segundo a psicóloga, uma característica comum dos filhos únicos é serem muito tímidos ou muito violentos. A explicação, mais uma vez, está na carência de relacionamentos. ''Não há com quem brincar, nem com quem brigar. Falta a afetividade entre irmãos. Quem opta por um só filho está privando-o de, no futuro, ter uma família'', sentencia. É comum, conforme Susy, nos depararmos com crianças que demonstram amadurecimento precoce em termos intelectuais, mas não sabem lidar com sentimentos.
Cabe aos pais que optam por ter um só filho estar alertas e evitar o excesso de expectativas em torno dele. ''O fardo para o filho único é quase sempre muito pesado'', lembra a psicóloga. Ela também ressalta que os pais devem procurar o equilíbrio entre dar demais e de menos aos filhos. ''Uma dica é pensar no que querem para o filho no futuro e começar a trabalhar para isso hoje. É preciso dar a ele a oportunidade da conquista, para que aprenda a valorizar o que tem, e também controlar as expectativas em torno da criança. O filho tem que ter espaço para cultivar os próprios sonhos e planos'', recomenda.

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