A primeira invasão de fundo de vale de Londrina foge completamente dos moldes atuais do movimento dos sem-teto, que hoje ocupam irregularmente 17 áreas na Cidade, somando 1.006 famílias ou 5.030 pessoas. Oito das nove famílias que moram na chácara Azevedo, na rua Bélgica, jardim Igapó (zona sul), passaram de locadores para invasores depois de 10 anos, ou mais, pagando aluguel aos proprietários do lugar. A condição das famílias mudou quando a proprietária da chácara morreu e os filhos venderam a área com cerca de 12,5 mil metros quadrados à Prefeitura.
As primeiras famílias estão no local há mais de 20 anos. No ano passado, onze dos últimos moradores que se instalaram na chácara foram para o conjunto habitacional Cambezinho, atrás do parque Arthur Thomas, também na zona sul. A troca foi proposta pela Companhia de Habitação de Londrina (Cohab-Ld), dentro do programa de desocupação dos fundos de vales. O primeiro morador da chácara, Francisco Ribeiro da Cruz, 60 anos, 21 deles passados no lugar, foi um dos que se recusou a ficar com uma casa no Cambezinho. ‘‘Ajudar a fazer uma casa com 20 metros quadrados sem ganhar nada e ainda pagar 25 anos para o Governo... Nunca vou fazer isso. Prefiro morar debaixo do viaduto. Não faço essa troca nem que o Jaime Lerner venha mandando.’
A história dele na chácara justifica a resistência. Funcionário da Sanepar, Cruz conta que ele chegou nas proximidades da chácara pelas mãos do então prefeito Antonio Belinati, que exercia seu primeiro mandato municipal. A princípio, ganhou o brejo nos fundos da área para cultivar. Depois conseguiu convencer a dona da chácara a lhe alugar a casa. ‘‘Eu pagava 20 cruzeiros de aluguel, água e luz e ainda dava 30% do que plantava para ela’’, relata. Prevenido, Cruz guarda até hoje os contratos de aluguel feitos. Segundo ele, os herdeiros do local nem comunicaram as famílias sobre a venda da chácara. ‘‘Ficamos sabendo por um fiscal da Prefeitura na época do seu Luiz (o ex-prefeito Luiz Eduardo Cheida)’, afirma. ‘‘Mas não vamos ficar incomodando a Prefeitura não. Para sair daqui é só eles me ajudarem a terminar minha casa’’. O imóvel, segundo ele, está sendo construído no jardim Acapulco (zona sul) e ainda não foi concluído por falta de condições financeiras.
Solange Nascimento, 20 anos, nascida na chácara, também não aceitou se mudar para o Cambezinho. Morando com a mãe e o filho de três anos, ela exige uma casa semelhante à que a mãe construiu. A casa de alvenaria, ainda por acabar, tem quatro cômodos e um banheiro. Segundo ela, a construção erguida há três anos custou cerca de R$ 6 mil. ‘‘A gente sempre pagou aluguel aqui e morava numa casa de madeira caindo aos pedaços. Começamos a construir porque o fiscal da Prefeitura falou que poderia demorar muitos anos para a gente ter que sair daqui’’, diz. ‘‘Aquelas casas do Cambezinho são do tamanho da nossa cozinha’’.
Uma única família da chácara Azevedo atualmente se enquadra no padrão de sem-teto. O aposentado João Sabino Nogueira Sobrinho, 48 anos, e sua mulher Sônia Maria, 29, grávida de sete meses, chegaram ao lugar há dois meses por não conseguir pagar aluguel. O discurso também é o mesmo: ‘‘Para sair daqui eles têm que dar uma casa para a gente’’. Quem conseguiu o terreno foi um primo de Sônia. ‘‘Não sei direito como foi, parece que a Cohab falou que podia ficar. Nogueira Sobrinho afirma que o ‘‘seu Z钒, o vizinho mais próximo, foi quem deu permissão para o casal ficar. Diferentes das demais invasões, as casas da chácara Azevedo têm água de mina encanada e energia elétrica puxada do poste mais próximo.
A administração municipal defende que invasões em fundo de vales não podem ser toleradas. A primeira reintegração de posse dessa administração foi pedida na semana passada. As 112 famílias do fundo de vale do José Giordano (zona norte) devem ser notificadas por oficiais de Justiça a partir de hoje e deixar a área em seguida. Caso haja resistência, os oficiais comunicam o juiz para ordenar uso de força policial. A expectativa do secretário municipal de Negócios Jurídicos, Eduardo Duarte Ferreira, é que os invasores deixem a área de forma ‘‘ordenada e passiva’’.

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