Populações em constante sensação de desamparo. Este é o retrato de pequenas cidades do Paraná que convivem com a crônica falta de segurança. A situação é tão grave que moradores antes acostumados à tranquilidade típica do interior hoje recorrem a cercas elétricas, alarmes e seguranças particulares para tentar minimizar os contantes roubos e assaltos. Dos cinco municípios visitados pela reportagem da FOLHA na última semana, apenas em um deles - Jardim Olinda, o menos populoso do Estado - os moradores ainda conseguem manter certa distância da violência urbana. Mas até lá o envolvimento de adolescentes com o tráfico de drogas já ameaça a paz.
  Para as vítimas da crescente violência, o problema tem duas causas principais: o envolvimento de jovens com o tráfico de drogas e o sucateamento dos organismos de segurança, com policiais e estrutura insuficientes para atender a demanda.
  Um retrato do sucateamento pode ser visto em Uraí (Norte), município com 11.472 habitantes, onde a cadeia, que funciona em um prédio construído na década de 1950, abriga presos também de Rancho Alegre - cidade que teve a cadeia desativada há mais de uma década - e de Jataizinho, que teve a carceragem interditada por falta de condições estruturais.
  O prédio localizado no Centro de Uraí tem capacidade para 12 presos, mas na última sexta-feira era ocupado por 43 homens, entre eles 26 condenados. A cadeia foi palco, em maio de 2009, de rebelião que resultou na morte de um preso. No último dia 12 mais um princípio de motim tornou a rotina da velha cadeia ainda mais agitada. Ali, quatro investigadores tentam dar conta dos trabalhos burocráticos, registrar ocorrências, atuar como carcereiros, concluir investigações e representar contra suspeitos de crimes à Justiça. Para não deixar o colega trabalhando sozinho (um dos investigadores ficou de refém na rebelião de 2009), eles comprometem suas folgas na delegacia. ‘‘Não poderíamos fazer isso, mas, por solidariedade, estamos trabalhando de graça para o Estado’’, conta um deles.
  Como se não bastasse, o prédio não oferece as mínimas condições de trabalho. As estruturas elétrica, hidráulica e de esgoto não comportam o número de ocupantes do prédio. A falta de água é constante, tanto na carceragem como na ala administrativa. Praticamente todos os dias os investigadores ficam sem água para beber ou para usar o banheiro. Uma obra foi iniciada para ampliar a parte administrativa e criar condições de atender vítimas separadamente das famílias dos presos, mas atualmente está parada aguardando a nomeação de um novo delegado para o município. O antigo, Michael Eymard Rocha Araújo, foi transferido para Foz do Iguaçu.
Jataizinho
  A maioria dos presos de Uraí (em torno de 70%) vêm de Jataizinho, município com população semelhante e que tem assistido a um grande aumento da violência nos últimos anos, sem investimentos compatíveis. A população sente os reflexos da falta de segurança. ‘‘Jataizinho não é mais a mesma. Moro aqui há mais de 40 anos e está muito diferente. Antes todo mundo vivia sossegado, a gente conhecia uns aos outros. Aqui a maioria já foi assaltado e tem muitos adolescentes envolvidos com drogas’’, revela a professora Suzane Aparecida Alves Schiavon. Para evitar más surpresas, ela instalou, há dois anos, cerca elétrica e alarme em sua casa. Vários outros moradores de ruas próximas fizeram o mesmo.
  A investigadora Angela Maria Junior, que trabalha na Polícia Civil há 28 anos, diz que o município ‘‘está esquecido’’ pelo Estado. ‘‘Somos em dois investigadores e um viatura para atender de 200 a 300 ocorrências por mês.’’ Diante da falta de condições, eles se concentram nas brigas de família e vias de fato. Os casos mais graves são encaminhados para Uraí. Quando a única viatura quebra, recorrem a veículos particulares para viabilizar as diligências. Segundo a investigadora, o prédio da delegacia foi construído em 1943 e está tão deteriorado que ‘‘chove mais dentro do que fora’’.

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