Telêmaco Borba - Fabricar um violino é processo complicado. Os melhores instrumentos são feitos na Alemanha, com madeiras nobres, tais como ácer e abeto, retiradas das frias regiões dos alpes. Ter um desses instrumentos não sai por menos de R$ 12 mil.
Por isso, não foi à toa que um paranaense de Telêmaco Borba (128 km ao norte de Ponta Grossa) chegou a ser chamado de louco quando decidiu tocar um projeto que estava em seus sonhos: construir violinos e outros instrumentos musicais de corda utilizando os eucaliptos que servem para a indústria de papel como matéria-prima. Não há notícias da utilização de tal madeira para fabricar esses refinados instrumentos em outro lugar do mundo.
Wendel de Freitas, 33 anos, não deu muita bola para as caras de desconfiança que encontrou em seu caminho e pôs as mãos e a cabeça para trabalhar. Deu resultado. Agora, a madeira das imensas florestas da Klabin, indústria de papel e celulose, que ficam em Telêmaco Borba, além de serem usadas na indústria papeleira, também servem para a arte do rapaz que era músico da Orquestra Sinfônica da Universidade Federal do Paraná e descobriu-se um luthier - profissional que fabrica instrumentos de corda com caixa de ressonância.
A história do tímido paranense com a lutheria começou pra valer no tempo em que ele era músico, em Curitiba. O violino que Wendel utilizava já estava ultrapassado, por isso ele recebeu de um professor a recomendação de que trocasse o instrumento se quisesse evoluir na carreira. Filho de um ferroviário aposentado e de uma dona de casa, ele não possuía o dinheiro necessário para a troca, por isso decidiu restaurar o violino que tinha. Gostou do resultado e resolveu fabricar um outro. Logo, o professor que o aconselhou a trocar de instrumento lhe deu outro bom conselho: deixe a música e se torne luthier.
Ele fez as malas e voltou para perto da família. Fez do fundo do quintal uma oficina, e do pai, Sebastião, que também já andara fabricando violinos, seu fiel ajudante.
De projeto na mão, bateu na porta do diretor-geral da Faculdade de Telêmaco Borba (Fateb), Tim Pontara, pedindo uma bolsa de estudo no curso de Engenharia Química, que naquela faculdade tem ênfase em papel e celulose. Mas, ao contrário dos outros alunos, Wendel não queria saber sobre o processo de fabricação de papel, queria ser engenheiro químico para descobrir uma fórmula de verniz apropriado para seus instrumentos, pois um luthier que se preze tem que ter seu próprio verniz.
''Quando ele falou sobre sua idéia de descobrir uma fórmula de verniz, disse que era louco. Quando ele completou que os instrumentos seriam de eucalipto, achei que ele tinha pirado de vez'', confessa Pontara, que mesmo assim resolveu apostar em Wendel e lhe premiou com a bolsa de estudos e com incentivos financeiros para que o projeto fosse adiante. ''Agora, estamos tomando providências para patentear o violino de eucalipto como uma invenção telemaco-borbense'', completa o empresário.
A Klabin também resolver apoiar, fornecendo a madeira. Rapidinho, Wendel construiu três instrumentos: dois violinos, uma viola. O resultado saiu melhor do que a encomenda. Em abril, o luthier alemão Valdemar Jansen, convidado a visitar Telêmaco Borba para conhecer os instrumentos feitos por Wendel, em uma escala de 0 a 10, deu nota 9,8 para o primeiro violino fabricado em eucalipto.
''Isso significa que pode ser utilizado por um profissional de qualquer orquestra. Eu esperava produzir instrumentos para iniciantes, mas o resultado foi muito melhor. Porém só foi avaliado o primeiro que produzi; pode ter sido sorte'', diz o luthier, que corre contra o tempo para finalizar, até setembro, mais um violino e o violoncelo. Todos serão utilizados durante a cerimônia de inauguração de uma nova ala da Klabin. O presidente da república Luiz Inácio Lula da Silva é um dos convidados e será presenteado com um violino de Wendel. ''Estou parcialmente realizado, mas ainda há muito pela frente'', comemora o luthier, que tem planos interessantes para um futuro próximo.

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